Aurélia
Em teu leito de morte, dissestes: nunca
te abandonei, porque faria isso agora?
Agora entendo tuas palavras em
antítese à partida
Agora que não te tendo tenho-te
comigo, nas idas e vindas
Agora que o tempo e o espaço
não são mais obstáculos
para a nossa dupla e simultaneamente
una companhia
Agora que todo entrave cotidiano
entre nós foi abolido
e nosso convívio orbita fora
de sua órbita
Agora que és livre para ser
em qualquer caminho
em qualquer paragem – ser
sem estar
presa entre as margens de fogo
da aurora e do crepúsculo
por onde corre este rio-presente
– parêntese – entre duas eternidades
Do livro A sombra da ausência
§
A morte desmonta relógios. A cada dia, a cada
hora, mundo afora, por onde passa.
Relógios-pássaros atravessados por dardos-ponteiros –
certeiros – em pleno voo.
Relógios-leões com vastos minutos de juba, nuvens-relógios que
brisam um só segundo
A morte não perde tempo, desmonta relógios em toda parte,
desaprisionando o tempo, que ensaia para eternidade. A morte leva
às costas um saco cheio de minúsculos relógios infinitamente
desmantelados, e suas miríades de fragmentos, caídos pela chuva
e pelo vento dos caminhos, germinam caules de efêmero,
galhos-ponteiros, onde pendem novas horas, algarismos,
frutos-pêndulos
Árvores carregadas de relógios a espera que ela, num segundo,
dê a volta ao mundo, passe e os colha novamente. Relógios em
forma de paixão, relógios-corações achados por acaso no chão
de um incêndio, delatados por seu crepitar tic-tac, relógios de
fogo que a morte carrega e atira ao rio, às águas que apagam a
memória em chamas
A morte não usa relógio, a morte não tem horário, mas –
poder, vaidade – as vezes, nas grandes cidades, põe uma
bomba-relógio no pulso e sai a passear nas ruas, de trem, nos
edifícios
Mas também às vezes parece desmontar relógios inocentemente:
uma criança desmontando o seu brinquedo. A morte é lúdica em
seus afazeres. Trabalha ao ar livre. A morte gosta do que faz e o
faz bem feito. A morte também não tem hora para voltar,
principalmente quando sai à noite para desmontar relógios
boêmios. Os métodos da morte são infindáveis, infinitos, há
relógios que ela quebra a marteladas, outros que congela só com
o olhar.
A oficina da morte não tem endereço. Ou Rua do Grande Segredo,
sem número?
Do livro A sombra da ausência
§
Indícios
A natureza reina silenciosa.
O rumor do vento nas folhas
e a onda que bate na rocha,
enchendo sonora a concha do ouvido,
outros sons teriam – vento, onda –
se outra fosse a forma dos sentidos.
Todo o barulho do mundo é um marulho interior.
Fora, a vida move-se sem o menor rumor.
Do livro A sombra da ausência
§
Manchas
Uma pequena mancha preta ave no topo do dia. O dia que se ergue
do sono das estrelas.
Ave sobre a terra e suave se aninha nas retinas do homem que,
pequenino,
entrecerra os olhos lançados para cima.
Uma pequena mancha na terra e uma pequena mancha no céu,
espelhando-se em suas imagens provisórias.
A mancha que flutua e
a mancha que se arrasta,
mas que também se eleva quando a visão da ave lhe empresta
asas.
Mancha presa na relva mirando a mancha preta suspensa no azul,
vindas do ventre secreto do mundo
para a incerteza da face visível da natureza. Mancha celeste,
mancha terrena.
Entre elas apenas o rumor do vento segreda a poeira e a nuvem da
existência.
Pequenas manchas pretas sobre o branco do dia. Ave e homem, dois
pontos, à beira do silêncio
Do livro Rio Silêncio
§
Após o dilúvio
Pela manhã, após o dilúvio, a lama nas calçadas,
os cacos de trovões no chão, o silêncio branco
do céu ensopado em gaze, as casas de lodo
e as alamedas disparando seus alarmes, os
caranguejos caindo dos ninhos das árvores
e as aves, no solo, querendo refazer o vôo
ao peso do barro e das h’eras sobre as asas,
o navio encalhado no topo de um telhado,
os animais estátuas sob a argila crosta à beira
do mar morto de sede bebendo vento nas mãos
em concha da areia, os jardins, Ó, os jardins
desabrochando em lodo, o sangue das crianças
jorrando das torneiras dos palácios e correndo
em sargetas para os esgotos, o sol lambendo
a pele das cobras que — relâmpago — agora
mudam de casca e pendem entrelaçadas
nos parapeitos dos edifícios entre as flores entre
abrindo as pálpebras de musgo para o arco-íris
refletido nos olhos do rosto sobrevivente,
que aspira o ar, ainda úmido, após o dilúvio
Do livro Rio Silêncio
§
Quando
Quando a luz cegar o seu fio
de navalha que corta tudo em
claro e escuro, e esta sombra
já não tiver a centelha com que
dialogar alternando-se em sol
e lua, silêncio e palavra,terra
e céu refletido nas águas do rio que
arrasta a imagem das noites e dos dias,
quando por mero acaso repentino
ou ocaso lento e gradual romper-se
o fio de voz que traz o não e o sim
na mesma frase de ritmo imprevisível,
nada ao mundo faltará e nada se
abalará a este pequeno movimento
de asa, que, ao decolar, vibra,
imperceptivelmente, a folhagem
Do livro Rio Silêncio
§
Ouve o mundo
Cala, ouve o mundo, há sempre
uma voz em tudo – um coaxo,
um sibilo, um crocitar, um zumbido,
um gorjeio, um zurrar, um rumor
de água, um silvo, um vento, um
far
fa
lhar,
um balido, um trino, um latido,
um cicio, um grunhido, um grasnado,
um sussurro, um rosnado, um ron
ronar, um rugido, um bater de asa,
um estalo na viga da casa, um ecoar,
um latejo na têmpora, um temporal,
um trovão, um ranger de porta, um
inaudível desabrochar, um cricrilo,
uma sílaba cicicicicicici cigarra,
um sino, um relógio, uma badalada,
um último suspiro, um novo ser
a respirar, um gemido amante,
o som de uma lágrima que cai no olvido,
uma vida inteira a murmurar – e no fundo
de todas as vozes inanimadas e animais
a voz do espírito que a tudo anima.
Ouve – há sempre uma voz em tudo.
Fica – um instante – mudo
Do livro A outra voz
§
África
Escrever nada, escrever negro, negro sobre negro, nada sobre
nada, escrever Não escrever no ar branco o nome do indizível
com a fumaça azul do haxixe, escrever na coronha dos fuzis, no
cano das armas, até entrar pelo cano, entrar para o cânone e
sair pela porta dos fundos da história, escrever com uma das
mãos enquanto a outra dá adeus, escrever com a boca fechada
pondo a língua pra fora, escrever sem as mãos, escrever com a
sola dos pés nas dunas fumegantes das Arábias, escrever no
dialeto sangrento das tribos em guerra, arabescos contra
algaravias, escrever com as pernas, com um pé nas costas, só
com uma perna, uma perna só – saci gaulês – escrever
com o toco da perna gangrenada, escrever gangrena, escrever com a
parte da perna amputada, escrever as noites e os silêncios sobre
tudo o que já foi escrito, manuscritos, palimpsestos, sobre os
grifos, sobre os gritos da canalha, escrever sem som, sem fazer
barulho, sem um ruído sequer, escrever a cavalo, escrever a
camelo atravessando as sete vozes do deserto, escrever na língua
dos animais selvagens que rondam a tenda durante a noite inteira,
escrever na lama da alma, xamã soletrando as sílabas dos
tambores da selva, escrever com a poeira da noite sobre o vazio
dos dias, virar a página, virar as páginas de areia das noites
e dos dias, virar comerciante, traficante, trafegar no tempo dos
assassinos – para além dos dias e das estações, pessoas e
países, a bandeira em carne viva sobre a seda dos oceanos e das
flores árticas; (elas não existem), até chegar, por mar,
mancando – mancada – manco de muletas sobre as águas,
num quartinho de hospital em Marselha – e dali, de novo
partir, num navio de velas manuscritas e rasuradas para o abismo
da voz apagada pela boca da eternidade que se abre abissal,
Abissínia.
Do livro A outra voz
§
A mão do artista
A W. H. Auden
Entre folhas de livros, tantas,
e outras tantas folhas de plantas,
a mão do artista e a mão do
mistério buscam um acordo,
um convívio, entre suas muitas,
múltiplas folhas – pois, enquanto
a mão do artista risca com ciência
sobre o papel, o que vem a ser
Vedélia sphagneticola,
o popular bem-me-quer,
no jardim a mão do mistério
se auto elabora, fundida à
sua própria criação sem nome,
ao léu, entre chão e céu, entre
o perceptível e o imperceptível
a mão do artista e a mão do in
visível operam, em silêncio,
um concerto à duas mãos
Do livro Caos, Cosmo
§
Fábula
Entre a beleza e a maciez das flores
ele abriga sua pele áspera, rugosa,
andarilho castigado pelas intempéries,
que, em certa altura do caminho, pousa
à sombra dessa verde cabana, acolhido
por belas e generosas damas, rosas,
também munidas de espinhos – agudos,
que só acentuam suas delicadas formas
opostas ao hóspede de face deformada
Quasímodo à rejeição acostumado,
sorve no cântaro das folhas o orvalho,
vinho servido à sede com o repasto
de insetos, iguarias postas na toalha
de mesa estrelada da madrugada,
manto a envolver também o bruxedo:
príncipe feito corcunda ao nascente
e que assim segue na carruagem do sol
até os confins decadentes do ocidente
Assim o poeta, sapo no jardim, deslocado,
soa no vazio da noite, solitário, seu coaxo
Do livro Caos, Cosmo
Antônio Moura é poeta, escritor e tradutor nascido em Belém do Pará (1963), reside em Petrolina, com uma trajetória marcada pelo trânsito entre São Paulo, Lisboa e Pernambuco. Tem 17 livros publicados, entre obras autorais, traduções do francês e espanhol, além de traduções de parte de sua obra para o inglês, o espanhol, o catalão e o alemão. O livro Rio Silêncio recebeu o prêmio John Dryden, no Reino Unido (tradução de Stefan Tobler). Realizou leituras na Casa Fernando Pessoa (Lisboa), no Espaço Agora (Paris) e no Centro Internacional de Poesia de Marselha (França). Indicado ao Prêmio Candango de Literatura (2022) e vencedor do Prêmio de Criação e Experimentação do Instituto de Artes do Pará, com a novela epistolar Nau sem porto – uma correspondência inescrita entre Rainer Maria Rilke e Paulo Plínio Abreu, Moura tem sua obra traduzida e publicada em diversas revistas e antologias nacionais e internacionais em países como Inglaterra, Estados Unidos, México, Alemanha e Espanha. Os poemas da seleção estão em Entre os astros e o desastre, poesia reunida (1996-2018), publicação de 2024 da Corsário-Satã.
