Malícia, fidúcia:
as unhas pintadas de mel.
E o vestido da nudez oculta
a velhice da alma.
Verdes mares longínquos
da mocidade: ressaca
de vinho tinto.
Que punhal é esse que não vejo
e usas, de súbito
e engulo,
e com uma cobra por echarpe
sirvo a mesa
de luto:
não sou a mesma. E quem és?
Quem és? Responde
com tua inocência de um tiro.
Em que bolso estava
quem eu vejo?
Mas tão depressa que parece nada.
A mesa é a mesma:
é madeira sem surpresa.
O que é servido evapora.
Quem eras?
É tamanha a veracidade da poesia de
Elisabeth Veiga que pouco nos apetece, como é frequente
nesse tipo de apresentação, esmiuçar-lhe os
procedimentos técnicos e artimanhas lúdicas de que é
pródiga, aliás, a sua arte. Tem-se a impressão,
inclusive, de que tais expedientes estilísticos – tão
à mostra em certos poetas brasileiros da atualidade,
como se neles residisse o segredo daquele timbre
encantatório da linguagem poética encontram-se a tal
ponto entranhados à emoção que de modo algum nos seria
possível visualizá-los. É que eles estão a serviço
não de uma poesia que busque em si própria o seu fim,
mas de algo que lhe transcende e lhe confere aquela voz
carregada e às vezes obscura daquilo que jaz nos abismos
do ser, daquilo que não explica nem se explica, como
ocorre amiúde quando se lê os grandes poetas. Quando
Mallarmé sentenciou que poesia se faz com palavras, e
não com ideias, não pretendeu em absoluto – como depois
alguns entenderam – instaurar o reino frio e impessoal de
uma palavra que fosse alheia ao discurso ou à emoção,
de uma palavra que não estivesse a serviço senão de si
própria e do ludismo que lhe inflama o significante.
Quis o autor de Un coup de dés apenas
delimitar os domínios de uma arte cujo veículo
essencial e irredutível é a palavra, dando assim "Un
sens plus pur aux mots de la tribu". E o
fez exatamente no momento em que, após as supremas
conquistas poéticas de Baudelaire, Rimbaud e Verlaine,
essa mesma palavra se perdia na rígida retórica do
Parnasianismo e no decadentismo penumbrista de fins do
século XIX. A digressão, aparentemente ociosa, tem aqui
a sua razão de ser, pois é a partir desse verbo
imantado e comovido que Elisabeth Veiga entretece toda a
sua pungente trama verbal, atenta àquele instante no
qual, para aquém e além do lirismo, o que desaba apenas
desaba porque já não suporta a sua carga de realidade
(…). |
Elisabeth de Mello Veiga da Silva, mais conhecida como Elisabeth Veiga (Rio de Janeiro, 30 de julho de 1941 – Rio de Janeiro, 2 de agosto de 2018), foi uma poeta brasileira. Obras publicadas: Gosto de Fábula (1972), A paixão em claro (1992), Sonata para pandemônio (2002) e A estalagem do som (2007).
