POESIA

Enigma

Imagem: Wikipedia/Reprodução.

Malícia, fidúcia:
as unhas pintadas de mel.

E o vestido da nudez oculta
a velhice da alma.

Verdes mares longínquos
da mocidade: ressaca
de vinho tinto.

Que punhal é esse que não vejo
e usas, de súbito
e engulo,
e com uma cobra por echarpe
sirvo a mesa
de luto:
não sou a mesma. E quem és?

Quem és? Responde
com tua inocência de um tiro.
Em que bolso estava
quem eu vejo?
Mas tão depressa que parece nada.

A mesa é a mesma:
é madeira sem surpresa.
O que é servido evapora.
Quem eras?


É tamanha a veracidade da poesia de Elisabeth Veiga que pouco nos apetece, como é frequente nesse tipo de apresentação, esmiuçar-lhe os procedimentos técnicos e artimanhas lúdicas de que é pródiga, aliás, a sua arte. Tem-se a impressão, inclusive, de que tais expedientes estilísticos – tão à mostra em certos poetas brasileiros da atualidade, como se neles residisse o segredo daquele timbre encantatório da linguagem poética encontram-se a tal ponto entranhados à emoção que de modo algum nos seria possível visualizá-los. É que eles estão a serviço não de uma poesia que busque em si própria o seu fim, mas de algo que lhe transcende e lhe confere aquela voz carregada e às vezes obscura daquilo que jaz nos abismos do ser, daquilo que não explica nem se explica, como ocorre amiúde quando se lê os grandes poetas. Quando Mallarmé sentenciou que poesia se faz com palavras, e não com ideias, não pretendeu em absoluto – como depois alguns entenderam – instaurar o reino frio e impessoal de uma palavra que fosse alheia ao discurso ou à emoção, de uma palavra que não estivesse a serviço senão de si própria e do ludismo que lhe inflama o significante. Quis o autor de Un coup de dés apenas delimitar os domínios de uma arte cujo veículo essencial e irredutível é a palavra, dando assim "Un sens plus pur aux mots de la tribu". E o fez exatamente no momento em que, após as supremas conquistas poéticas de Baudelaire, Rimbaud e Verlaine, essa mesma palavra se perdia na rígida retórica do Parnasianismo e no decadentismo penumbrista de fins do século XIX. A digressão, aparentemente ociosa, tem aqui a sua razão de ser, pois é a partir desse verbo imantado e comovido que Elisabeth Veiga entretece toda a sua pungente trama verbal, atenta àquele instante no qual, para aquém e além do lirismo, o que desaba apenas desaba porque já não suporta a sua carga de realidade (…).
Ivan Junqueira
In: Junqueira, Ivan. Ensaios escolhidos – Volume 1: de poesia e poetas. São Paulo – SP: A Girafa, 2005.

Elisabeth de Mello Veiga da Silva, mais conhecida como Elisabeth Veiga (Rio de Janeiro, 30 de julho de 1941 – Rio de Janeiro, 2 de agosto de 2018), foi uma poeta brasileira. Obras publicadas: Gosto de Fábula (1972), A paixão em claro (1992), Sonata para pandemônio (2002) e A estalagem do som (2007).

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