ainda se falava no projeto genoma
(clonar ovelhas era a inteligência artificial)
quando baseado na biologia do colégio rosário
especulei — o gene poético tem de ser dominante —
a praticidade brutal da humanidade
seu gosto por ferramentas e performance
há muito haveria extinto um gene recessivo
e nem a cobiçante fuga do crossing over
salvaria a contemplação de ter um fim
e os dicionários não diriam nunca — pervagar
e a máxima encarnação da beleza
estaria em móveis sob medida
§
mais a ver com a pelagem da gata
do que ser noite e maio em buenos aires
teus dedos são os dedos do primeiro
homem a tocar o couro do primeiro bicho
mais simples quando são apenas coisas
tramadas para viverem da utilidade
quando podiam ter sido relíquias —
já o sangue ainda que em outro corpo
tem a mesma cor das feridas de homero
§
nada do que te compõe é replicável — as sabidas coisas
unhas castanhos fios ruivos pintas sardas
o que existe em ti está só em ti sem o amparo
do vicário retorno das sazões — como
também serão únicas em ti as linhas do tempo
coisas sabidas tão sabidas — mas onde estão
nada é replicável nem a noite no pequeno apartamento
tuas pernas quase mais extensas que o sofá
e eu te olhava do tapete que um dia foi dourado
à gentileza de dois palmos de tua penugem colorada
§
um cheiro vago de café no quarto
a fina espuma e o estrado de molas
erguer-se é soar como um rato
na sala tudo são sombras azuis
um rumor de vozes — é o rádio
e agora o cigarro forte da manhã
postada junto à sua mesa posta
minha avó aquiesce e me sento
o mesmo silêncio daquelas manhãs
e dormimos acordamos esperamos
por certos esplendores que não vêm
§
a expectativa do grande gesto — que gesto
e por que grande se tão perto está a salsa
esta outra mão gesto sim verdadeiro e este
ramo de alecrim que o sol do terraço
lambeu em copioso desperdício no verão
o roçar dos sexos na noite casta das roupas
o acinte primitivo de teus pés descalços
o que seria o grande gesto aclamado afinal
responda-me sem pressa o poema espera
§
entregar-se por vontade à prisão da forma
se nem dois animais respondem igualmente
a um jogo concebido de carícias e vozes —
todas as ideias precisam de um armado
dizia um professor quase digno e seguia
os gregos usavam a palavra técnica para —
é o esmalte das canecas perdido nas barras
consolo de sermos presidiários há milênios
ao fim a cruz também precede a matéria
Pedro Gonzaga é natural de Porto Alegre. Professor, músico e escritor, tem doze obras publicadas, entre prosa, poesia, crônica e ensaio, tendo sido vencedor na categoria de poesia do Prêmio Minuano de Literatura, em 2024, com o livro Porto Alegre Blues. Também exerce a atividade de tradutor, com mais de vinte obras vertidas ao português. Doutor em Letras pela UFRGS, é cronista do Portal Sler e do Estado da Arte, blogue do Estadão. Desde 2022 vive em Buenos Aires.
