POESIA

Monólogo

Estar atento diante do ignorado,
reconhecer-se no desconhecido,
olhar o mundo, o espaço iluminado,
e compreender o que não tem sentido.

Guardar o que não pode ser guardado,
perder o que não pode ser perdido.
 – É preciso ser puro, mas cuidado!
É preciso ser livre, mas sentido!

É preciso paciência, e que impaciência!
É preciso pensar, ou esquecer,
e conter a violência, com prudência,

qual desarmada vítima ao querer
vingar-se, sim, vingar-se da existência,
e, misteriosamente, não poder.


Dante Milano não deixou vestígios que indicassem interesses contemporâneos. Tampouco esqueceu no fundo de uma gaveta um único rabisco malogrado, originais rejeitados ou rascunhos inacabados. Não há registros de desenhos. O que leva a crer que esculpia apenas bustos direto dos moldes de gesso. Ou, talvez não. A levar em conta seu irmão Attilio, quando escreve que Dante poderia ilustrar seus livros à maneira de Gabriel Rossetti, talvez tenha descartado seus esboços como fez com os poemas. Aníbal Machado testemunha que o poeta rasgou em torno de trezentos deles. E o próprio Dante declarou ter rejeitado vinte vezes mais do que publicou. Ele era, sim, um revisador compulsivo. O poema A ponte, por exemplo, incluído na primeira edição de Poesias, traz emendas ao original publicado no Suplemento Literário de A Manhã em 1943 e seguiria sofrendo alterações nas subsequentes reimpressões de 58 e de 71 até alcançar sua forma definitiva em 79.

Restam 146 poemas. Sua prosa é escassa e o arquivo privado, mínimo. Em seu espólio tudo é essencial. Não há evidências dos esforços ou fracassos, só dos logros (e cada poema canónico pode ser considerado um). Mesmo a biblioteca do escritório petropolitano não excede a duas estantes com livros fundamentais: Ovídio, Horácio, Virgílio, Alighieri, Camões, Leopardi, suas leituras recorrentes.

De todos modos, revisitar o material de campo traz cenas da vida do poeta e algumas reflexões que destoam das generalizações criadas pelas práticas biográficas e literárias das fontes consultadas. O tom de advogado do diabo assumido neste pós-escrito não mira Dante Milano, mas a construção do seu estereótipo.

Thomaz Albornoz Neves.

NEVES, Thomaz Albornoz. Pós-escrito a Dante Milano. Sant’ Ana do Livramento: tan editorial, 2022. 240 p.

Dante Milano (1899–1991) foi um poeta, tradutor e funcionário público brasileiro, associado ao modernismo, embora tenha mantido uma trajetória bastante singular e discreta dentro da literatura do século XX no Brasil. Nasceu no Rio de Janeiro, filho de imigrantes italianos, e viveu ali grande parte da vida. Dante Milano publicou muito pouco ao longo da vida. Seu livro mais conhecido, Poesias (1948), reuniu poemas escritos ao longo de décadas e consolidou sua reputação como um autor de linguagem rigorosa, introspectiva e extremamente trabalhada. (Wikipedia)

Um comentário sobre “Monólogo”

  1. AUREA GARIBALDI disse:

    Que belíssimo MONÓLOGO, cheio de sabedoria e poesia…

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *