POESIA

Marcos Siscar: poesia e cultivo

Imagem: Eugène Grasset, Water Lily, 1896.

Jamerson Eduardo Reis

É sempre difícil selecionar poemas de uma obra tão instigante como a de Marcos Siscar. Nascido em Borborema (SP), o poeta, crítico e tradutor estreou em poesia em 1999 com Não se diz e mantém-se ativo, publicando em ritmo constante desde então. Entre seus livros mais recentes estão Manual de flutuação para amadores (7Letras, 2015), Duas janelas (com Ana Martins Marques; Luna Parque, 2016), Isto não é um documentário (7Letras, 2019), A viva (Fósforo, 2022) e Infinito de bolso (7Letras, 2025).

Diante da dificuldade da escolha, me concentrei em um espaço familiar para mim e para os leitores da poesia do autor, o jardim. Longe de ser um lugar comum, o jardim de Siscar possui uma simplicidade inóspita que funciona como armadilha para a sensibilidade do outro, na medida em que se constrói a partir do trabalho de “mãos calejadas de sentido”. Nele é possível encontrar o frutífero jogo de contrastes das “coisas pequenas” e do jardineiro, que, a despeito do que dizem os melhores manuais de jardinagem, exerce seu ofício à noite. A isso se soma um esforço de concisão capaz de comprimir palavras e deixá-las à beira de uma dispersão de sentidos, mas que, na grama do verso, repousam como “lápide de afeto”. É preciso chegar perto para ler o nome, seu nome, lá e deixar-se afetar. A “montagem” desse “jardim de vestígios” ainda permite ver a tomada de partido do autor pela poesia, ela enquanto coisa viva, integrada ao mundo. Daí a relação de causalidade entre manter os olhos e os pés no chão e a boa poesia, apontada pelo “Bloco de notas”. Há, claro, outros jardins nesse jardim, quase sempre é assim, portanto resta aqui apenas o desejo de que o leitor cultive a vontade de sujar os olhos, de contaminar-se com esse solo vivo, prenhe de palavras.

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O jardineiro noturno

contrariando o dia claro e os cortes difíceis
as raízes renitentes e a reparação do erro
o jardineiro cuidadosamente arranca uma a uma
as plantas que nasceram no seu canteiro
a terra está molhada o dia já se foi e os dedos
procuram a terra se sujam de terra do cheiro da terra
cegos pelo frescor de um verde muito denso
untados com a noite de uma prosa inespecífica
através do ar escuro adivinhamos agora sua face
adiada à espera de uma cor

de Manual de flutuação para amadores (2015)

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Bloco de notas

1. olhe sempre para baixo enquanto anda
como se ainda pudesse pisar em carrapicho
manter os pés no chão causa boa poesia
lagartos e sarjetas têm potencial analítico
(o calçamento contém em si o avesso
da terra instaurado pelo passo civilizado et coetera)

de Não se diz (1999)

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As flores do mal

Ninguém pode cortar por mim o mato do quintal. Ele invadiu o pomar, ameaça obstruir os caminhos. Digo-me que foi gerado pela força do meu silêncio ou da minha omissão. Mas de fato foi semeado pela mão que outrora o arrancou e involuntariamente semeou. Crescido forte e vigoroso, agora enche o trajeto de espanto, de amor-cego, de picão. O carrapicho, por exemplo, essa flor incisiva, nasce no centro de um círculo raiado e vai expandindo seus dedos, até entregar o bago louro de um trigo ruim. Visto de cima, ele tem a forma que enxergo quando fecho os olhos. Ninguém pode cortar o mato, por mim. Nos dias de chuva, contemplo seu crescimento, sua tranquila absorção do influxo da vida, o percurso que o levará a sufocar a civilização criada em torno dele. Em dias como este, as mãos calejadas de sentido, me ajoelho e o ataco com as unhas. E no meio de ervas daninhas suo, me sujo, concentrado como um artesão, enfurecido como um filósofo, a extirpá-lo. Enquanto isso, suas sementes caem no chão limpo e a terra as acolhe, hospitaleira. Nuvens passam aos pedaços, quando me deito.

de O roubo do silêncio (2006)

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Alguma coisa de vida

alguma coisa cresce dentro de mim
dilata o desejo de amar e de ser
amado dentro de mim pressiona
os músculos de coração martelado
pelo tumulto do espetáculo ah essa
cúpula de cores a que a retina adere
um tumor um filho um torno
alguma coisa aperta dentro de mim
contorce meus dedos leva de
assalto a tarde que ficou espreitando
meu silêncio (já nem sei o que queria
dizer que estou vivo enquanto expira
o poema ainda alguma coisa de vida

de Metade da arte (2003)

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Jardim de vestígios

Minha vida é o que vejo. A criança na bicicleta subindo a rua. A chuva caindo num dia quente. Seus cabelos despenteados. A cidade vista de longe. Seu rosto visto de perto. Os olhos fechados no abraço. Meu amigo rindo. O dono do boteco. A roupa de um verde vivo. As mãos da menina enquanto dança. Um carro mal estacionado. O funcionário que olha desconfiado. Um desconhecido andando à frente. Folhetos no lixo. Um barulho de tiro. A briga depois da esquina. Formiga na ponta de uma folha. Unha suja. Mosca em cima da merda. Um velho trator com cheiro de óleo. TV ligada. Olhos abertos. Mato crescendo na sarjeta. Alguns livros empilhados. Caminhões. Casas passando à beira da estrada. Gato em cima do muro. Nuvens brancas sujando o azul. O muro pichado. O ritmo acelerado. A parada. O detalhe. O conjunto. De novo os olhos fechados. A boca entreaberta. E ao fundo um murmúrio de metáforas selvagens. Jardim de vestígios cuidadosamente organizados. A vida é o que vejo. Montagem é tudo.

de Isto não é um documentário (2019)

§

minha mulher em cima do telhado
enxuga as últimas gotas de orvalho
limpa o céu que estava com nuvens
coloca pássaros em galhos de árvores
varre uma a uma as telhas de barro
escova as impurezas da matéria
arranha as transcendências
arrisca sonhos vermelhos e amarelos
com a leveza treinada dos pés
depois planta flores no ar
e recalcula as leis da gravidade
olhando da altura adequada
durante dias a fio entretém
nossa invenção mais ousada
nosso chão mais propício
as ideias que quisemos comuns
centrada risonha implacável
prepara sem nenhuma pressa
nossa lápide de afeto e de sol
às expensas do vento

de Infinito de bolso (2025)

§

Coisas pequenas

procurar as coisas pequenas da vida.
identificar as coisas pequenas da vida.
estabelecer o contato físico. abraçar
as coisas pequenas da vida.
sentir na pele que estão impregnadas. estão completamente
impregnadas. os cheiros escorrem um suor gorduroso.
estão cheias de grandeza indesejada.
estão infladas inchadas. são tudo menos coisas pequenas.
já não são apenas coisas. se é que um dia
foram pequenas. mas têm o ser-pequeno
das coisas-pequenas. têm o ranço do silêncio.
indignação da pequenez.
sujar-se inteiro do seu suor indesejado.
a gordura vem de dentro não se separa da carne
não existe limpeza da situação verbal.
o poema das coisas pequenas
vem de dentro, vem sujo e gorduroso
poesia que embaça.

de Interior via Satélite (2010)

Marcos Siscar nasceu em 1964, na cidade de Borborema (SP). É poeta, tradutor, professor do Departamento de Teoria Literária da Unicamp e autor de Metade da arte (7Letras/ Cosacnaify, 2003), O roubo do silêncio (7Letras, 2006), Cadê uma coisa (7Letras, 2012), Manual de flutuação para amadores (7Letras, 2015), De volta ao fim: o “fim das vanguardas” como questão da poesia contemporânea (7Letras, 2016 – prêmio Jabuti 2017) e Isto não é um documentário (7Letras, 2019), entre outros.

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