Lucio Carvalho
Bagé – RS
Caudal da poesia brasileira, Minas Gerais é igualmente pródiga em talento musical. De suas serras e montes, um canto sacro, de fé, o barroco de Lobo de Mesquita e Francisco Gomes da Rocha, reverbera ainda como fonte expressiva a repercutir no canto religioso e popular, e de certa forma também na poesia escrita — mesmo naquela que, modernamente, vincula-se aos movimentos culturais globais e olha (e muitas vezes migra) para fora dos limites mineiros.
Esse percurso de exportação de talentos, contudo, não significa que os artistas mineiros se distanciem de sua origem ou de sua identidade. O traço mineiro revela-se de imediato — no sotaque, certamente, mas também em uma maneira muito própria de se expressar. Não se trata apenas das interjeições, muito mais de um modo de falar que carrega a marca de quem sabe esperar, não se precipita e não costuma dizer algo sem antes refletir e, quando diz, vai direto ao que importa.
Há uns dias já (ou meses), venho ensaiando uma conversa cheia de cautelas com um desses mineiros “tipo exportação”. Meu interlocutor — o músico, cantor, compositor e escritor Nelson Angelo — vem organizando o seu trabalho escrito e temos conversado a respeito disso. Na verdade, a prosa é a respeito de muita coisa: de música, viagens, amizades, histórias, inspirações e inclinações de uma pessoa notável pela criatividade e inventividade e que dispensa maiores apresentações (quem queira saber mais, pode consultar o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira ou o seu depoimento no Museu da Pessoa).
Das primeiras perguntas que fiz ao Nelson, indaguei justamente quando ele havia partido de Belo Horizonte e se fixado no Rio de Janeiro, como um pivô, e dali para os lugares onde mais viveu e trabalhou. Diz ele que isso aconteceu aos dezesseis anos de idade, no ano de 1966. Embora tenha estudado música e vivido numa família “musical”, seu anseio era o de conhecer e experimentar por conta própria. E assim desenvolveu sua aprendizagem de forma autoaprendente, decidido ainda adolescente a dispensar a vida acadêmica e a formar-se músico, literalmente correndo mundo.
Nesse período inicial da vida/carreira, foi e voltou muitas vezes a Belo Horizonte e participou de não sabe quantos arranjos e gravações dos artistas que se reuniram sob a abóbada metafórica do Clube da Esquina, do qual, como é sabido, prosperou um dos mais profícuos movimentos culturais brasileiros. Gravou seu primeiro (e cultuado) disco também, com Joyce, em 1971. Mas diz que até hoje não perdeu o sotaque (não perdeu mesmo) mineiro nem pôde apagar de si sua origem, vivida em parte na capital e também no interior e nas fazendas dos campos gerais.
Dessa vivência, aliás, vem uma de suas mais conhecidas composições que ele reputa ter levado dez minutos para compor, num processo de “clarão”, como dizem os mineiros. A canção teve muitas gravações célebres, como a que Milton Nascimento fez no álbum Geraes (1976), e é apenas uma das que evocam essa vivência de “pé no chão” em sua obra discográfica.

Fazenda
Água de beber
Bica no quintal
Sede de viver tudo
E o esquecer era tão normal
Que o tempo parava
E a meninada
Respirava o vento
Até vir a noite
E os velhos falavam coisas dessa vida
Eu era criança, hoje é você
E no amanhã, nós
Água de beber
Bica no quintal
Sede de viver tudo
E o esquecer era tão normal
Que o tempo parava
Tinha sabiá, tinha laranjeira
Tinha manga-rosa
Tinha o sol da manhã
E na despedida
Tios na varanda
Jipe na estrada
E o coração lá
Tios na varanda
Jipe na estrada
E o coração lá


A justaposição “mundo rural” e “urbano”, aliás, é muito presente tanto no cancioneiro de Nelson Angelo quanto em seu legado escrito, no qual ladeiam-se sem nenhuma disputa a poesia e a crônica. O fato de sua carreira musical ter enveredado para o jazz, uma linguagem universal, e para o trabalho com artistas internacionais, não o afastou dos temas da fazenda, do campo e do mato. Em dezenas de registros, a água e o rio estão presentes como uma entidade germinativa, mas também fluída e rítmica. É a Harmonia da água, como é intitulado um de seus trabalhos instrumentais do sofisticado álbum “Violão & outras coisas (2002)”.
Do livro em preparação, um poema dedicado a Belo Horizonte demonstra bem o quanto o mundo urbano sempre se deixa infiltrar pela paisagem agreste, montanhosa:


Nossa cidade
Subir e descer ladeiras
Em ruas de contar história
Par ou ímpar de cabeças
Esquecimentos memórias
Flor do baile das praças
Não diga nada
Seu nome é liberdade
É só ver o horizonte
E sentir o belo
Em coisas que não espero
Santas montanhas
Almas finas
Tantas vidas
Capital de Minas

Além da contribuição no seminal Clube da Esquina e das parcerias travadas com cantores e compositores, especialmente na primeira metade dos 70, sua marca autoral tem grande relevo em dois álbuns fundamentais de Milton Nascimento, e de alguma forma cria um vínculo indissociável entre Minas e Geraes. Se Fazenda abre o álbum Geraes, é com o impacto de Simples que se conclui Minas. Mas uma composição é como a antítese da outra. A fazenda idílica, atemporal, colidindo com a modernização e seu impacto ambiental. Paisagem natural em choque com a deterioração da paisagem urbana já pressentida pelo olhar poético do compositor.

Simples
Olha a volta do rio virou vida
A água da fonte nossa tristeza
O sol no horizonte uma ferida
Olha o ouro da mina virou veneno
O sangue na terra virou brinquedo
E aquela criança ali sentada

Apesar de haver iniciado a compor e criar letras ainda na década de 60, e de que a literatura mineira transitasse pela juventude de modo mais informal, foi com o poeta e letrista Cacaso que Nelson aprofundou sua relação com a poesia escrita, isto é, do verso composto sem a intenção musical. Reunidos no Rio de Janeiro, onde moravam, os dois criaram dezenas de composições.
Uma amostra dessa parceria é o álbum Mar de Mineiro, gravado em 2002. A relação de ambos, mesmo afastados pelas necessidades diversas, manteve-se até mesmo por cartas. Dar a conhecer essa correspondência e colaboração é um plano de Nelson, que guarda as cartas trocadas entre os dois como relíquias.
Se a carreira musical levou Nelson a experimentar os ares cosmopolitas, ele que, como Toninho Horta, da turma do Clube da Esquina derivou mais para o jazz e a música experimental, para ele a escrita é momento de meditação (para ver os parceiros musicais de Nelson, basta consultar a Wikipedia). Se na música ele verte a inventividade universal de um Murilo Mendes de harmonia imprevisível, na crônica é prosaico e irônico no melhor estilo drummondiano e, na poesia, reverente e até mesmo litúrgico como Adélia Prado, sem, entretanto, afastar-se do tom coloquial e da prosa proseada, por assim dizer. Este um estilo que absorveu de Cacaso, o seu maior parceiro entre tantos.
… até que a morte nos separe!
Expedito Honório nasceu numa região montanhosa, perto de uma cidadezinha desconhecida, num lugarejo afastado dela uns dois quilômetros.Família muito religiosa que vivia do campo. Missa aos domingos de manhã, bíblia e orações no cotidiano, café, almoço e jantar, hora de dormir até o cantar do galo anunciando um novo dia.
Dona Fervorosa Honório e as duas filhas mais velhas, Laurentina (Lindinha) e Risoleta (Pituca) também se incumbiam desses assuntos, quando a mãe ficava ocupada com outros afazeres da casa, alimentação, cuidados de uma mãe com seus amores. A família era grande: seis irmãs e quatro irmãos. Tratar de todos trazia preocupações a ela e ao seu marido Seu Lázaro (Lazin), tão peculiar e zeloso. Seu Lázaro, homem temente à Deus e à verdade que era aceita assim como os mistérios, sem questão. Todos batizados, crismados, sacramentados em todos os conformes estabelecidos a uma família cristã tradicional. Miriane (Mirinha), a do meio, sonhava em conseguir uma benção do Papa João Paulo II e pendurá-la na parede da sala.
Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo, não tomar seu Santo nome em vão, não matar, não roubar, amar e respeitar pai e mãe e vai, e vai, até aparecer não desejar a mulher do próximo, que é o mandamento no qual se baseia essa narrativa e suas consequências absolutamente inesperadas e causadoras de um furacão em minha alma. Faz tempo, na igrejinha de Santo Antônio, cenário desta estória tragicômica, numa das missas matinais de domingo, onde contarei o que aconteceu, deixando no ar a dúvida para a conclusão de cada um.
Eu Expedito, o Pitinho, mais tímido do que ninguém merece, vivi de verdade o que vou contar agora. Missa das dez, cheia, não consegui lugar junto à família e fui me sentar no fundo da igreja. Ao chegar me deparei com uma moça: linda como a lua, delicada aos sentidos e olhos enormes, emoldurados por cabelos da cor da graúna, que contrastavam com sua pele branca, branca, uma mágica imagem de mulher, uma aparição. Minhas pernas perderam a força, as mãos tremeram e minha respiração ofegante me denunciou. Gaguejei no bom dia e fiquei mudo, sem som, sem chão.
Ela por sua vez sorrindo disse bom dia Senhor!, o suficiente para que tivesse certeza de que encontrara a moça mais linda que vi. Parecia uma Santa. Meu corpo tremeu, por temor a Deus, com medo do “castigo do fogo do inferno”. Ensopado de suor lembrando dos dogmas religiosos que aprendi. Percebendo a situação, perguntou-me se eu precisava de alguma coisa, talvez de um copo de água. Obrigado! – balbuciei e de volta recebi um sorriso. Virei para a frente e fingi estar prestando atenção na eucaristia.
De repente percebi que ao lado dela se encontrava um cavalheiro muito bem apessoado e com cara de poucos amigos. Aí me complicou mais ainda, pensei, é o marido dela e ele não está gostando nada do que viu. Quis sair correndo, mas não consegui. Pensei: que falta de sorte, caramba! O alívio da benção final e minha retirada apressada em direção à minha família me salvaram.
Passei toda a semana com uma mistura de ressaca, paixão, sonhos e ‘pecados imperdoáveis’ e tive certeza que minha vida nunca mais seria a mesma.
Os anos se passaram, a paixão e o desejo não. Nunca mais cheguei perto dos dois durante trinta e três anos. Os via de longe e rezava para não desejar a mulher do próximo outra vez. A vida voltou à rotina e como acontece, o tempo apagou as lembranças. Um dia a vi novamente. Notei então a ausência de seu marido e resolvi perguntar por ele. Ela respondeu: ah, meu irmão? Morreu. Já era doente há muito tempo, obrigada por perguntar.
Facetas de um homem só que tem planos ambiciosos, como o projeto O sertão da cidade, obra que procura tensionar a contradita da vida urbana e a vida rural. Matéria de sua obra desde sempre, assim como planos de logo publicar um volume de poesia e colocar o seu pé também no caminho literário. Para ele, tanto música quanto a escrita vêm de um mesmo sentimento e cada qual pede um caminho, “de dentro para fora”, como uma terceira ideia que atravessa o criador para fazer-se arte.





Nelson Angelo Cavalcanti Martins nasceu em Belo Horizonte (MG), no dia 15 de junho de 1949. Filho de mineiros de Ponte Nova, seu pai, Nelson Vieira Martins, era médico. Sua mãe, Heloísa Cavalcanti Martins, dona de casa. Cresceu admirando a mãe tocando piano e as irmãs, violão. Aos 10 anos, passou estudar violão, que é considerado por ele seu primeiro instrumento, ainda que antes tivesse flertado com o tamborim. Seu primeiro contato com o Clube da Esquina aconteceu entre 1962 e 1963, quando conheceu Márcio Borges e Milton Nascimento, em Belo Horizonte, e a partir deles conheceu toda a turma. Em 1966, aos 16 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro e tirou a carteira da Ordem dos Músicos. Multi-instrumentista, Nelson toca violão, percussão, piano e baixo. No disco Clube da Esquina teve um grande envolvimento em composições, além de tocar diversos instrumentos, com destaque para o baixo. Durante sua trajetória de vida esteve ao lado de Tom Jobim, Egberto Gismonti, Vinicius de Moraes e Raul Seixas, entre outros grandes nomes da MPB (Museu da Pessoa).
