ENSAIO

Perder o pio a emendar a morte: poesia à beira do esgotamento do mundo

Imagem: Reprodução.

Antônio Moura
Belém – PA

Escrita durante o período de confinamento da pandemia e publicada em 2023 pela editora The Poetry and Dragons Society, a obra Perder o pio a emendar a morte, do poeta cabo-verdiano José Luiz Tavares, vencedora do Prémio Ulysses 2022, vai além desse quadro circunstancial, já que este não circunscreve a situação de barbárie mundial em que o mundo se abisma, mas, na verdade, é consequência desta e de sua voracidade predatória.

Posto isto, vemos que neste livro o leitor é lançado em um território onde linguagem, corpo e realidade parecem ter atravessado um limiar de desgaste irreversível. O livro constrói um cenário que, embora não se declare explicitamente como distópico nos moldes tradicionais da ficção, revela-se como tal pela rarefação dos vínculos humanos, pelo colapso simbólico da comunicação e pela sensação persistente de um mundo que já não responde aos gestos que nele se inscrevem. Trata-se menos de uma distopia futurista do que de uma distopia imanente — um agora tensionado até o limite de sua própria significação.

A distopia em Perder o pio a emendar a morte não se apresenta por meio de grandes estruturas totalitárias ou cenários espetaculares de ruína, mas por uma erosão silenciosa e contínua. O que se perde, antes de tudo, é a capacidade de dizer — e, portanto, de existir em comum. O título já indica esse deslocamento: “perder o pio” sugere não apenas o silenciamento, mas uma espécie de falência do próprio impulso expressivo.

Nesse mundo, a linguagem não desaparece; ela persiste como ruína. As palavras ainda existem, mas parecem deslocadas de seu centro de gravidade, incapazes de fixar sentido. O resultado é um ambiente em que o sujeito se move entre fragmentos, restos de discursos, ecos de uma comunicação outrora possível. A distopia, portanto, não é apenas social ou política — é ontológica. Ela atinge a própria condição de possibilidade da experiência compartilhada.

A paisagem que emerge desses textos é árida, mas não desprovida de intensidade. Há um constante atrito entre o que ainda pulsa e o que já se perdeu. O mundo não acabou — mas está, por assim dizer, em estado de falha contínua.

Diante desse cenário, a obra não se entrega passivamente à constatação da ruína. Há, em seus poemas, um movimento de enfrentamento — ainda que esse enfrentamento se dê em condições profundamente adversas. Trata-se de um embate desigual, no qual o sujeito poético parece ciente da precariedade de seus próprios instrumentos.

Esse enfrentamento não assume a forma de uma resistência heroica ou de um projeto de reconstrução. Ao contrário, ele se realiza no próprio gesto de permanecer, de insistir, de continuar a enunciar mesmo quando a enunciação parece esvaziada. Há uma ética da persistência que atravessa o livro: falar, ainda que falar já não garanta nada; escrever, mesmo quando a escrita já não assegura permanência.

Nesse sentido, o enfrentamento é também um reconhecimento dos limites. O sujeito não se ilude quanto à possibilidade de restaurar um mundo perdido ou de reverter o processo de degradação. Ainda assim, ele se recusa a abdicar completamente do gesto poético. O confronto se dá, portanto, no interior da própria falência — como se a resistência possível fosse justamente habitar essa falência sem negá-la.

É nesse ponto que a obra alcança uma de suas tensões mais significativas: a poesia surge como forma de contraposição ao mundo distópico, mas uma contraposição consciente de sua insuficiência. Não há aqui a crença romântica na poesia como força redentora ou transformadora em sentido amplo. Ao contrário, a própria natureza da poesia é interrogada.

A poesia, em Perder o pio a emendar a morte não salva — mas também não se cala. Ela opera como um gesto mínimo de resistência, uma espécie de ruído persistente em meio ao silêncio crescente. Sua força está menos em produzir efeitos práticos do que em sustentar uma presença, ainda que frágil, no interior do esvaziamento.

Essa consciência dos limites não diminui a potência da obra; ao contrário, a radicaliza. Ao recusar ilusões de eficácia, o livro desloca o valor da poesia para outro plano: o da experiência, da intensidade, da insistência em dizer mesmo quando o dizer parece não alcançar seu destinatário.

Há, assim, uma espécie de paradoxo produtivo: a poesia é, ao mesmo tempo, insuficiente e indispensável. Insuficiente porque não altera o curso do mundo; indispensável porque, sem ela, o próprio colapso seria absoluto, sem testemunho, sem forma, sem resto.

Perder o pio a emendar a morte constrói uma poética da exaustão sem cair na inércia. Seu mundo distópico não é um cenário externo, mas uma condição que atravessa linguagem, sujeito e realidade. O enfrentamento que propõe é discreto, quase obstinado em sua fragilidade. E a poesia que emerge desse processo é uma poesia sem garantias — mas, justamente por isso, profundamente necessária.

Ao fim, o livro parece nos dizer que, mesmo quando o mundo já não responde, ainda há algo a ser dito. Não como promessa de redenção, mas como último vestígio de uma presença que se recusa a desaparecer em silêncio.

Antônio Moura é poeta, escritor e tradutor nascido em Belém do Pará (1963), reside em Petrolina, com uma trajetória marcada pelo trânsito entre São Paulo, Lisboa e Pernambuco. Tem 17 livros publicados, entre obras autorais, traduções do francês e espanhol, além de traduções de parte de sua obra para o inglês, o espanhol, o catalão e o alemão. O livro Rio Silêncio recebeu o prêmio John Dryden, no Reino Unido (tradução de Stefan Tobler). Realizou leituras na Casa Fernando Pessoa (Lisboa), no Espaço Agora (Paris) e no Centro Internacional de Poesia de Marselha (França). Indicado ao Prêmio Candango de Literatura (2022) e vencedor do Prêmio de Criação e Experimentação do Instituto de Artes do Pará, com a novela epistolar Nau sem porto – uma correspondência inescrita entre Rainer Maria Rilke e Paulo Plínio Abreu, Moura tem sua obra traduzida e publicada em diversas revistas e antologias nacionais e internacionais em países como Inglaterra, Estados Unidos, México, Alemanha e Espanha.

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