Tratado inexato sobre a reprodução dos pássaros
Ocorre assim:
a fêmea choca os ovos
dia e noite – se preciso,
contra o vento, sob a chuva,
as plumas úmidas, os olhos
inocentes.
Temo que os ovos se quebrem
antes da hora, temo que dentro deles
haja pequenos pássaros
mortos,
julgo precária a arquitetura do ninho,
pressinto o cerco
das aves de rapina.
Ela espera, inabalável,
alheia ao que não seja
a fé mais pura.
Ela sabe que está no mundo
para ser um lume
sempre aceso.
E nascem os filhotes,
vivos, nus, cegos, famintos,
seus corpos são bicos abertos,
a mãe os alimenta com aquilo
que guardava em si,
num gesto repetido desde a origem
dos passeriformes.
Chegado o tempo, ela
bate as asas com alarde,
ensinando a coragem para o salto,
ensinando a ir embora
para muito longe
(os pássaros não sentem
saudade).
Todos os voos no primeiro voo,
no abrir canhestro
das asas recém-feitas.
É breve a infância dos pássaros.
Primeiro abandonam o ninho,
depois a árvore, depois se perdem
entre outros tantos,
até que não os reconheço.
Olhando o ninho vazio,
me pergunto se existiram,
como quem deixa de crer em milagres,
como quem já foi feliz
e esqueceu,
como quem se vê sozinho
ao fim da festa.
Isso é o que aprendi
em setembro.
§
O trabalho dos vivos
Aos poucos, conjugamos
os verbos no passado
e saímos ao sol no dia dos mortos
sem qualquer pudor.
Os mortos acenam de um portão
enquanto partimos (somos nós
que partimos) –
menos nítidos, mais distantes
cada vez que olhamos
para trás.
Os mortos sofrem, pedem:
“não nos esqueçam”.
E seguem acenando do portão
de sua casa, anos a fio,
dentro da mesma noite.
Têm olhos graves,
mas amoráveis.
Voltar à casa dos mortos
de quando em quando,
acender a luz do alpendre
para que não sintam medo:
eis o trabalho dos vivos.
§
Uma poética
A vida dos lepidópteros,
a solidão dos astronautas,
os guarda-chuvas quebrados depois da tempestade,
um sem-teto estendendo roupas ao sol,
a hora do almoço dos operários,
os erros ortográficos nas cartas de amor,
as fotos dos desaparecidos,
os peixes sufocados.
As coisas perdidas ou deixadas a um canto,
o primeiro cão, a primeira morte,
as casinhas à beira da estrada
e quem dorme dentro delas,
as abóboras que não viraram carruagens douradas,
as últimas palavras de pessoas comuns,
a última dança de Kazuo Ohno,
a canção mais triste de Sérgio Sampaio.
A paz dos amnésicos e dos recém-nascidos,
meu destino nas cartas de tarô,
cada sístole e diástole,
o fato de dizermos sempre “até amanhã”
ou “parece que foi ontem”,
o susto dos telefones tocando fora de hora,
o milagre de chegarmos quase intactos à noite,
as aves-do-paraíso apaixonadas,
tudo o que escrevo quando tentava escrever outra coisa
e tudo o que jamais caberá neste poema.
Ana Costa dos Santos é gaúcha de Porto Alegre e doutora em Letras pela UFRGS. É autora do livro de contos O que faltava ao peixe (Libretos, 2011) e dos livros de poemas Móbile (Patuá, 2017), finalista do prêmio Açorianos de literatura, Fabulário (Confraria do Vento, 2019), vencedor dos prêmios Governo de Minas Gerais de Literatura e Minuano, e Voo breve sob o sol (Círculo de Poemas, 2025).
