O verde e o nada
o que dar de si
à cruenta metamorfose
da seiva
o que posso fingir
para esse mastodonte
de troncos
qual sorriso toca
essa avalanche verde
dilatada num tempo de rocha
quem sou a sós
na absoluta cadência
do mato
que lhe importa
minha genealogia
ao rio corrente
é impossível
essa natureza
sem dentro nem fora
interesse, indiferença
ou desassossego
vive porque a existência
só tem uma forma
não avança, não cresce
existe
e se morre
também vive
§
Germinação
galpão sombrio fevereiro, sol
a pino calor pleno, e lá ainda é
frio místico
ali me espera a aranha-mor
armadeira, mão grande
espalmada
não a vejo
varejeira não entra precavida
me entrego à providência
divina
armadeira
não vista
é ubíqua
saio convertido
ao nume do campo
vi germinar a fé e o temor
do mistério
§
A revolução de uma palha
um dos pés de bergamota
flora em ciclo circadiano
insurgente
é dormência de temporada
intempestiva
à sombra de muitas outras
copas divergentes
não dá fruto de ano em ano
mas quando sim, outro não
árvore aneira
espírito de cerne bruto
na revolta do campo
a paciência é trincheira
§
O sutil baluarte da lesma
chega-se à casa do morro
esticam-se as pernas como longas estradas
percebe-se ao vento
que os motores foram substituídos
por trinos, cacarejos e latidos
o ar que se inspira é verde
como uma esponja de grama
depois que o mato entra no peito
e toma de inço as vísceras
as cordas vocais, o alento
a palavra só escoará em silêncio
quando o corpo entrar na trilha
ou no rio
há peso no oxigénio
sufoca de vagar a água
suspensa
faz corpo mole
a circulação bovina-se
o sopro do vale despressuriza a veia cava
o sono vem como a dormência da semente
quebra-se na água morna
na escarificação da casca urbana
fala baixo quem se dá ao campo
farfalha
tira-se os tênis de poliéster
da sola de eva ao descalço de Eva
a planta dos pés
mal suporta
a planta da grama
dessensibiliza-se aos passos
o que a cidade oculta
a pele
lembra-se o corpo do trigo
da trilha, do traje de orvalho
o descompasso é de tempo
num átimo se percebe
o tronco das línguas, os signos
da metafísica da terra e do ar
as cinzas incorporadas no solo
o sutil baluarte da lesma
o ritmo que atraca na estepe
e navega na mata
a carcaça de cimento desvestida
espreita
enlevo pousa na carne
leve
inspira-se fundo e pede-se
à pessoa mais próxima
algo de beber
somente pelo êxtase discreto
de existir e conviver
Augusto Quenard nasceu no Brasil em 1984. Formou-se em Letras, fez mestrado em Literatura Comparada e especialização em Tradução. Atualmente é tradutor e intérprete e doutorando em Escrita Criativa na PUC RS. Tem crônicas e contos publicados em blogs e antologias. É criador do blog Resumos de leituras e coprodutor do programa on-line Charla Literária. É autor de Cá, eu, lá (Ipê Amarelo), livro de poemas bilíngue. Os poemas da seleção integram o livro Campo Semântico (Ed. Contratempo, 2024).
