Oblação
Eu quero me deitar nos degraus do teu templo;
trazer de muito longe uma oferenda
da terra em que nasci, torrão de argila rubra
guardado em minhas mãos de peregrino;
coletar para ti um odre de água pura
das fontes ancestrais que noutros tempos
foram a minha iniciação nos teus mistérios;
e desta água e desta terra então
eu quero derramar no teu altar sagrado
uma oblação secreta e cuidadosa,
perfectiva, com sândalo, olíbano e mirra;
fazer-te uma oração inconfessável,
compreensível somente ao ouvido dos deuses;
e imolar-me na glória do teu nome.
§
Triolet
Aquela flor que tu pegaste da calçada,
branca e dourada flor tombada junto à rua,
sobreviveu por quatro ou cinco madrugadas,
aquela flor que tu pegaste da calçada,
até que se estragou na jarra improvisada.
Porém com nova flor a flor se perpetua,
aquela flor que tu pegaste da calçada,
branca e dourada flor tombada junto à rua.
§
As noites se tornaram mais compridas
As noites se tornaram mais compridas
e os dias amanhecem muito tarde.
És tão solar quanto é solar a vida,
mas de noite tu tendes a brilhar
de forma mais intensa que de dia.
Eu não sei explicar a natureza
disso que em ti reluz e se irradia
a partir dos teus olhos — da beleza
alegre dos teus olhos de criança —
e dessa inteligência que é tão tua.
Existe alguma coisa em ti que dança
mais rápido se a festa se atenua,
com tanto mais intensidade quanto
se torna manifesto o fim do canto.
§
Deitar contigo à noite e conversar
Deitar contigo à noite e conversar
a respeito de tudo que é mais caro
ao coração, às vezes relembrar
amizades perdidas (e não raro
falar de coisas muito doloridas),
contar histórias sobre antepassados
e parentes (e mesmo Deus duvida
de tanto causo estranho a ser contado),
e pensar que, enlaçado nos teus braços,
eu sinto alguma coisa que só posso
comparar desenhando um outro espaço,
num tempo que já não é mais o nosso
(um forte de coberta em que se abriga
um menino com sua melhor amiga).
Leonardo Antunes (São Paulo, 1983) é poeta, tradutor e professor de língua e literatura grega na UFRGS. Seus mais recentes livros são Regressos (Martelo Editorial, 2023) e a tradução de A Ilíada de Homero em decassílabos duplos (Zouk, 2022).
