Jonas Samudio
Belo Horizonte – MG
A literatura se edifica sobre suas ruínas
(BLANCHOT, 2011, p.312).
1 Escrever: escavar
Escrever, gesto que, desde os tempos do barro úmido, é marcar uma passagem: “a escrita nada mais é, em suma, que uma gretadura. Trata-se de dividir, sulcar, descontinuar uma matéria plana, seja ela folha, pele argila, muro” (BARTHES, 2004, p. 213). Como nos tabletes de argila, em que os sumérios depunham suas tradições, rotinas, seus ritos, sua experiência a ser guardada para ser redita e reposta adiante, na memória vindoura dos povos, e dos tempos. Ainda quando em ruínas, pois também estas fazem parte da escrita: “o que nos é oferecido a ler pelo que, da linguagem, existe, isto é, o que vem a se tramar como efeito de sua erosão – foi assim que defini a escrita” (LACAN, 2008, p. 74), trata-se de escavar, retirando e, concomitantemente, depositando, sobre uma superfície, os vestígios de uma passagem.
De fato, ler a escrita, em sua erosão literal – lascas de tabuinhas de argila, encontrados nas ruínas de Nínive, de Ur, como exemplares de bibliotecas babilônicas (e a de Assurbanipal tendo, dentre elas, destaque), e, a partir do séc. XIX, traduzidas e apresentadas ao leitor que, em quase três mil anos, lhe é posterior –, implica a leitura de um texto tal qual era escrito em outras condições de autoria e de contexto: atribuída a “Sinleqe’unnenni [foi] descoberta nas ruínas do palácio do Rei Assurbanipal, em Nínive, por Austin Layard, em 1839. E datada de 1000 a.C.” (JAGER, 2001, p. 131-132, tradução nossa). Tal atribuição, contudo, sendo referida a Sîn-leqi-unninni como seu autor, não deve ser compreendida no sentido moderno de autoria; seu trabalho seria, antes, uma versão, ou mesmo edição, pois:
[…] como acontece com relação a ciclos poéticos semelhantes, não constitui uma obra “original” (no sentido moderno), pois trabalha ele com uma tradição escrita em sumério e acádio que já contava, em sua época, com mais de meio milênio. Portanto, é lidando com essa tradição escrita que Sîn-leqi-unninni, ele próprio um escriba, compõe a nova versão do poema, entre os séculos XII e XI a.C. (BRANDÃO, 2014, p. 126).
Entre versões escritas, argila traçada sobre argila traçada, Sîn-leqi-unnninni nos oferece, assim como aos seus leitores-ouvintes de primeira ordem, um poema que, por um lado, “pode ser lido como uma meditação sobre o misterioso caminho da humanização e da civilização que leva da vida brutal, no deserto, para a plenamente humana, a vida cultivada em uma cidade” (JAGER, 2001, p. 132, tradução nossa) e, por outro e conjuntamente, traz “para primeiro plano a pergunta sobre a mortalidade do homem, que transforma o seu herói, de simples aventureiro, num verdadeiro sábio” (BRANDÃO, 2014, p. 126). Em um aspecto e no outro, trata-se do espaço das transformações.
Entre morte e escrita, a vida por elas passa, e talvez se afirme como uma sorte de permanência da argila a exigir, talvez a pedir, e a receber, tradução e leitura. Tradução e leitura que não cessam de interpelar: de que modo, por qual artifício, sabemos o que Gilgamesh, o herói mortal da mortalidade enfrentada, fez? Como nos são trazidas as marcas de sua errância, do mais profundo abismo à mais alta das montanhas dos cedros?
O poema nos responde:
De distante caminho volveu, cansado e pacificado,
Numa estela pôs então o seu labor por inteiro (I, 9-10) (SÎN-LEQI-UNNNINNI, 2019, p. 45).
Estela, “monólito; espécie de coluna, destinada a ter uma inscrição; marco: Estela funerária” (AULETE, [s/d]); ainda:
era costume dos reis registrar numa estela (narû) algum acontecimento importante de seu reinado, visando a torná-lo público. Um narû pode ter ainda o valor de documento jurídico, pode marcar uma fronteira ou ser a ‘pedra fundamental’ […] de um templo, enterrada nas fundações ou posta em seu interior (BRANDÃO, 2014, p. 129, nota relativa ao v.10).
Estela, pedra documento, pedra fundamento, pedra funerária: pedra escrita em que a memória dos feitos e das obras vem, a um só tempo, registrar o já-ido como dom aos que estão porvir, mesmo o porvir do livro:
“por vir” pode dar a entender, a saber, mais de uma coisa, pelo menos três:
1. Que o livro como tal tem – ou não tem – porvir, no momento em que a incorporação eletrônica e virtualizante, a tela e o teclado, a transmissão telemática, a composição digital parecem desalojar o substituir o códice […]
2. Que, se ele tem um futuro, o livro por vir não será mais o que foi.
3. Que se aguarda ou espera um outro livro, um livro por vir, o qual transfigurará ou mesmo salvará o livro do naufrágio em curso (DERRIDA, 2004, p. 23-24).
Já em uma pedra, pois, se suporta esse por vir do livro. Será nela, também, que, no futuro, terá lugar a leitura do que resta de uma vida e uma vida que, por ali, passou; em sua sabedoria, em seus feitos heroicos, em sua brutalidade juvenil, em seus amores, em sua errância e em seu luto pelo desaparecimento do amigo, tudo o que, vivo, o herói viu, ouviu e fez, jaz, até hoje, registrado numa estela, cuja presença é oferta que se escreve e que se “constitui um recurso poético que provavelmente deveria ser percebido enquanto tal pelo leitor (ou ouvinte) do poema […], ao qual o texto passa a dirigir-se explicitamente dois versos adiante” (BRANDÃO, 2014, p. 129, nota relativa ao v.10).
Dentre os versos dirigidos ao leitor-ouvinte, destacamos três que, parecem-nos, fazem referência ainda à imagem da estela, mas, já agora, pela articulação entre a tabuinha de pedra, a leitura e a escrita, como o lugar em que o poeta escreveu o vivido por Gilgamesh, herói, rei, homem, aquele viu o abismo e os confins do mundo:
Abre a tampa do tesouro,
Levanta a tabuinha lápis-lazúli, lê
O que Gilgámesh passou, todos os seus trabalhos (I, 26-28) (SÎN-LEQI-UNNNINNI, 2019, p. 45).
No templo, no tesouro dos reis, entre as riquezas do reino, estão as preciosas tábuas que contam a trajetória de Gilgamesh. E, de fato, a escrita, nesse contexto, não deixa de estar ligada à dimensão religiosa suméria. No barro, água e terra – “a terra é o sustentáculo da construção, a fecundidade na aproximação, estimulando o conjunto das águas e dos minerais, da vegetação e da fauna” (HEIDEGGER, 2002, p. 155) – se encontram, e será, também esse encontro, a argila, fruto da benevolência dos deuses: “Os sumérios escreviam em pequenos tabletes de argila de mão pressionando um estilete oco no barro molhado. O deus que trouxe a terra e a água juntos também desempenhou um papel importante neste contexto” (JAGER, 2001, p. 146, tradução nossa).
Um dom: o estilete oco desenhando um traço na argila úmida, sulcando-a, produzindo, nessa matéria, ravinamentos: “a escrita é esse ravinamento” (LACAN, 2009, p. 116). A escrita, pois, é a própria permanência dos feitos e das obras, visões e versos, de Gilgamesh, tal qual são traçadas pelo dom de escrever para serem lidos.
O barro de uma “metamorfose em fracasso” 1
Nessa matéria, pois, a escrita se dá como a subsistência da terra em sua realidade de ser lida como matéria sempre dada:
Tudo o que é físico tem o primeiro papel: o ritmo, o peso, a massa, a figura, e depois o papel sobre o qual escrevemos, o traço de tinta, o livro. Sim. Felizmente a linguagem é uma coisa: é a coisa escrita, um pedaço de casca, uma lasca de rocha, um fragmento de argila em que subsiste a realidade da terra (BLANCHOT, 2011, p. 336).
Na materialidade da escrita subsiste a terra em sua benevolência e ferocidade, e, com Gilgamesh, também no barro da escrita, essa é a possibilidade de sua permanência. Desse modo, podemos afirmar que o trecho, extraído da Tabuinha 10,
Atingiu-o o fado da humanidade
Por seis dias e sete noites sobre ele chorei,
Não o entreguei ao funeral
Até que um verme lhe caiu do nariz.
Tive medo —
A morte temi, vago pela estepe.
O caso do meu amigo pesa sobre mim,
Um longo caminho vago pela estepe,
O caso de Enkídu, amigo meu, pesa sobre mim,
Uma lona jornada vago pela estepe!
Como calar, como ficar eu em silêncio?
O amigo meu, que amo, tornou-se barro,
Enkídu, o amigo meu, que amo, tornou-se barro!
E eu: como ele não deitarei,
E não mais levantarei de era em era? (10, 57-71) (SÎN-LEQI-UNNNINNI, 2019, p. 110-111).
traz a mesma realidade da escrita como o fato da morte do vivido, pois o permanecer, ou a imortalidade – a busca do herói –, não deixa de ser, como paradoxo, a vida inscrita na morte – o texto que permanece – e morte inscrita na vida – escrito desse modo e nessa versão, o texto não mais se alterará – pois, vinda do barro, a ele tornando, morte, escrita e vida encontram
nele um modo de permanência a necessitar de outros leitores, com seu sopro, para lhes insuflar aquilo que é próprio do viver, uma vibração múltipla que, por outro lado, necessita da morte inscrita para ser soprada. O barro se faz lugar de morte e vida.
A visão de Enkídu, o amigo, a se tornar barro, convoca, pois, em Gilgamesh, a pergunta pela sua própria transformação: a impossibilidade de levantar-se. Igualmente, arremessa tal pergunta ao futuro do leitor-ouvinte que, entre argila e sopro, estará, literalmente, diante do dom dos deuses, os únicos que podem tornar possível tal permanência. Da impossibilidade de levantar-se, conhece-se a possibilidade de ser, literal e metaforicamente, levantado; lendo e ouvindo Gilgamesh, pelos traços de Sîn-leqi-unnninni, lê-se e ouve-se a altura de uma palavra poética primordial, aquela que vem do barro e a ele se dirige, palavra que é “a vida dessa morte; é ‘a vida que carrega a morte e se mantém nela’. Admirável poder. Mas algo estava ali e não está mais. Algo desapareceu” (BLANCHOT, 2011, p. 335). Gilgamesh, Enkídu, desaparecem, mas não desaparecem seus feitos, sua obra, sua vida e seu modo de morrer, em suma, algo de seu barro permanece – e, contudo, permanece como uma sorte de “metamorfose em fracasso” que, como figura em abismo, indica que a metamorfose não se conclui, que há metamorfose dentro da metamorfose, ou, ainda, que certos modos da metamorfose se abismam como processos de infinitização: assim, se Gilgamesh não se transforma em imortal, também não morre de modo definitivo, pois permanece, numa sorte de eternidade escavada no barro, mas o faz de modo não definitivo, pois o mesmo barro que perdura por milênios se resguarda em sua fragilidade. Em vida, contudo na morte, o poema de Gilgamesh testemunha uma “metamorfose em fracasso” que “não mira o sucesso de seu procedimento, uma teleologia, e não vê, no fracasso, o insucesso, antes, nele reconhece uma forma de não conclusão, abrindo-se à vulnerabilidade e à potência […] Em suma, inventando outras alianças com seu corpo” mortal, e frágil, portanto (SAMUDIO, 2024, p. 60). Permanece, como tabuinha, à beira de seu próprio desaparecimento que, também ele, está à mercê de aparecer.
Como o dom dos deuses, os doadores da imortalidade e que não a concedem, é literal na escrita no barro, tornando-os “coabitantes do mesmo cosmos. A unidade deste cosmos é garantida pela ‘promessa de fidelidade’ [no original, “troth”], a promessa de lealdade, transmitida pela palavra primordial ou poética” (JAGER, 2001, p. 149, tradução nossa), assim se dá de modo literal o dom de uma tal quase imortalidade no barro, também doada aos deuses – pois também eles desapareceram –, para que, na articulação entre terra, água, traço e sopro sejam oferta e acolhida de argila, água e terra, escrita e leitura, e também sua vida possa permanecer e ser doada: como barro que permanece barro, barro da leitura que torna ao barro da escrita, em que, meio barro, meio escrita, o corpo de Gilgamesh segue, na leitura, corpo aberto em vias de transformação sempre incompleta: em uma imortalidade frágil, em uma mortalidade que perdura.
Notas
1 Fazemos referência à noção de “metamorfose em fracasso”, sobre a qual temos nos debruçado em publicações e textos apresentados em eventos, a partir de nossa pesquisa de pós-doutorado (desenvolvida entre 2023-2024, no Poslit/UFMG, com período de bolsa CNPQ/PDJ). Para uma abordagem mais aprofundada, indicamos o texto: “‘Um desvio qualquer’ ou a metamorfose em fracasso: O caso da borboleta Atíria”, de nossa autoria, publicado na Textura: Revista de Educação e Letras (link para acesso disponível nas Referências a este texto).
Referências
BARTHES, Roland. Inéditos: v. 1 – teoria. Trad. Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
BLANCHOT, Maurice. A parte do fogo. Trad. Ana Maria Scherer. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
BRANDÃO, Jacyntho Lins. Sîn-leqi-unninni, Ele o abismo viu (série de Gilgámesh 1). In: Nuntius Antiquus. Belo Horizonte, n.2, v.10, jul-dez/2014, p.125-159.
DERRIDA, Jacques. Papel-máquina. Trad. Evando Nascimento. São Paulo: Estação Liberdade, 2004.
HEIDEGGER, Martin. Ensaios e conferências. Trad. Emmanuel Carneiro Leão; Gilvan Fogel; Marcia S. C. Schuback. Petrópolis: Vozes, 2002.
JAGER, Bernd. The birth of poetry and the creation of a human world: an exploration of the Epic of Gilgamesh. In: Journal of Phenomenological Psychology, n.2, v. 32, 2001, p.131-154.
LACAN, Jacques. O Seminário: 18, De um discurso que não fosse semblante. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.
LACAN, Jacques.. O Seminário: 20, Mais ainda. Trad. M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
SAMUDIO, Jonas. “Um desvio qualquer” ou a metamorfose em fracasso: O caso da borboleta Atíria. Textura: Revista de Educação e Letras. V. 26, n. 66, abr/jun 2024, p. 57-67. Disponível em: http://www.periodicos.ulbra.br/index.php/txra/article/view/8027/4957. Acesso em 09 jan. 2026.
SÎN-LEQI-UNNNINNI. Ele o abismo viu. Trad. Jacyntho Lins Brandão. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.
Jonas Samudio escreve, lê, ensina, corta e costura, alinhavando textos e tecidos, corpo, feminino, mística, escrita, alguns vestidos. Após um percurso pela Filosofia e Teologia, cursou Letras, tendo se doutorado em Estudos Literários (POSLIT/UFMG, 2019) e desenvolvido a pesquisa de pós-doutorado (POSLIT/UFMG) intitulada: A literatura e os femininos: Maria Gabriela Llansol, João da Cruz e Camila Sosa Villada. Desde 2019, sustenta a marca de vestuário Teresa Texto Tecido (@teresatextotecido), em todos os seus processos. Conduz oficinas de escrita e arte, individuais e coletivas. Publicou ensaios em revistas e os livros: a mais aberta (Cas’a edições, 2017), mão de fora e suas histórias (ed. do autor, 2017), pétala pele (Cas’a edições, 2020), nós, as irmãs Brontë: seguido de outros textos (ed. do autor, 2021), Barthes, Loyola, e outros textos, em coautoria com Carlos Rafael Pinto (Saber Criativo, 2023), Das partes abertas: ensaio sobre o gozo da matéria (Amitiè Casa Editorial, 2024); Demasiado alinho: Teresa e outros textos sobre escrita e costura (Teresa Texto Tecido, 2025) é seu mais recente livro.
