No Parque da Cidade
não ser digno da poesia do século,
nenhum transe como Rilke em Duíno
apertar com as duas mãos o guidão
duma bicicleta verde dentro do parque,
uma tarde simples que não dará em nada
além de dores nas panturrilhas.
A estátua de Confúcio, doada pela China,
orna o centro de uma das praças,
indiferente aos automóveis,
meu corpo arde inutilmente
(como os livros que guardo no Kindle).
§
As formas do pássaro
uma ave pousa no asfalto quente
e, como se seus pés ardessem
de repente, alça voo sobre os automóveis.
ao final da rua estreita que leva ao mar,
avisto o oásis de um rosto conhecido
e o coração dispara em direção às águas
senhor, permita-me mais um erro,
senão por merecimento,
apenas porque é Verão,
e a quilha de um barco esmerilha,
nas ondas do Atlântico,
as formas do pássaro.
§
o mesmo amor
agora que já não creio no amor,
tenho como nunca o peito aberto.
ajeito o meu alforje no deserto,
sem medo de ser eu sei quem sou.
há tantas companhias fugidias,
tímido e pequeno, o grande amor
faz ninho e armadilha nos atalhos
que forjo nessa trilha rumo ao mar.
do alto dos abismos, ressentido,
à beira dos penhascos, aonde for,
dependurado no peito cata a flor,
o amor que já não é e o mesmo amor.
§
para guiar um cão bem cego
então você escuta uma canção antiga no rádio do carro
e pensa nas vigas que sustentam as pontes sobre o mar.
entre Xangai e Ningbo, quarenta e dois quilômetros sobre a Baía de Hangzhou.
você pensa nas pontes por uma razão
extensamente íntima,
extensamente íntima.
você é incapaz de ligar com exatidão dois pontos.
§
Refúgio
Há de ficar quieta essa saudade,
refúgio do que arde de esperança,
criança que espera, até bem tarde,
presente que não veio, não virá.
Há de caber no corpo, docemente,
ausência que desfaz os pesadelos
e, com zelo, nos desperta de manhã.
Feito janelas batendo ao vento.
Sabemos, dos fantasmas, ser o tempo,
blatera de camelos no Irã.
§
E deixa que o mundo gire
os tristes não têm vez
nesse parque de luzes.
contam um, dois, três
e desfalecem no alto
das rodas gigantes.
ariscos, entediados,
atados à roda do atirador de facas.
quem há de chorar por mim?
interrogam às maçãs do amor,
os dedos sujos de açúcar,
enquanto os amantes de suas amantes
afiam uma arma branca.
§
Shofar
de olhos fechados, contabilizo fracassos
em um rebanho de insônias
súbito, um dos carneiros resfolega diante da cerca
e aponta os chifres para o alto
no instrumento sagrado de sopro,
mágica música ressona, dentro
do imenso vácuo da noite imensa,
monótona, serena, a madrugada dança.
§
Hipnos
nomear o invisível cão
morto a pedradas,
ao qual agora só as moscas
rendem mesuras
imaginar se, pouco antes,
o instinto sempre aceso,
esse cão notou que a morte
se fez jaula
ou se, ao trotar, a sua alma,
livre e inominada,
nomeou-se a si mesmo infância.
§
isso é o amor
isso é um gato, dizem, como se dissessem
isso é o amor. eis que desliza sobre os móveis,
proclamando a própria existência.
em seus olhos, fixos no vazio, tramas se estendem,
novelos desfiam, o dia se rende.
isso é o amor, dizem, como se pressentissem,
na palma quente da mão, a passagem do gato
ou a preparação para o salto, tão somente.
§
Cena de cinema
como acontece não imagino
me abrigo em um clichê.
chove nesse lugar comum:
a tarde morna de um café,
e a porta de vidro se move
devagar e faz tremer o sino.
meu coração poderia parar
agora, nesse sonho
que foi me distraindo de tudo
o que eu sabia sobre mim.
O Destino se confirma
em um som, um sim,
o som do sino,
que se vai diluindo até a porta abrir.
Kátia Borges é autora dos livros “De volta à caixa de abelhas” (As letras da Bahia, 2002), “Uma balada para Janis” (P55, 2009), “Ticket Zen” (Escrituras, 2010), “Escorpião Amarelo” (P55, 2012), “São Selvagem” (P55, 2014), “O exercício da distração” (Penalux, 2017), “A teoria da felicidade” (Patuá, 2020), “Tudo será daqui pra frente” (Patuá, 2022) e “Dias amenos” (Segundo Selo/Organismo, 2023). Tem poemas incluídos nas coletâneas “Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000” (Global, 2009), “Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia” (Éditions Lanore, 2012), “Autores Baianos, um Panorama” (P55, 2013) e na “Mini-Anthology of Brazilian Poetry” (Placitas: Malpais Rewiew, 2013). Foi semifinalista ao Prêmio Jabuti 2021, na categoria crônicas, com o livro “A teoria da felicidade” (editora Patuá, 2020).
