Lucio Carvalho
Bagé – RS
Para o Aguinaldo Médici
A aventura dos livros é dos visionários, assim dizia meu pai detrás dos grossos óculos, olhos virados para baixo revirando sobre a mesa pilhas de papéis soltos que ele transportava de monte a monte, como se fizesse ele aquele milagre relatado nas viagens de Marco Polo, a montanha transportada de uma parte a outra por obra da fé em Deus. Li muitas vezes este livro que ele mantinha no lavatório, mas repetidas vezes li este capítulo 16. Quando criança, tinha fascínio em milagres e aquele me parecia um dos mais formidáveis e gratuitos; melhor dizendo, formidável exatamente pelo gratuito fenômeno de intervenção divina no plano geológico.
Não tenho, felizmente, um nome que lembre o de meu pai, que em Manchester se tornou motivo de escárnio por ter recusado publicar o irlandês de quem eu não posso dizer o nome. Deste modo, passo relativamente desconhecido. O dele foi martelado nas redondezas das docas até por volta de 1963, quando os Beatles estiveram por lá pela primeira vez, no Three Coin Club, suplantando qualquer lenda pregressa. Era eu uma criança nestes dias e lembro do primo Matthew, no domingo posterior, tentando explicar à família quem eram os tais garotos aqueles, qual a sua química e porque era imperdível e nós tolos como bobos da aldeia, que não conhecíamos nada nem ninguém.
“Vocês vegetam como plantas enquanto o que interessa passa pela porta da frente e vocês não reconhecem nada”, ele disse e no mesmo momento o pai rompeu o seu silêncio habitual e o enxotou da casa que havia antes sido do seu pai, meu avô, e prometeu que o primo Matthew nunca mais colocaria os pés ali. Quando segui os passos de Matthew e sumi com ele detrás da porta vi os olhos do pai procurando outro lado para não nos ver. E desde ali nunca mais me tratou como antes.
A sua ira se explicava porque em seu juízo, de visionário, não haveria ofensa maior do que sugerir que ele não percebia as coisas, os influxos das coisas e etc. Ele ter trazido à Inglaterra e publicado algumas edições baratas de Georges Sim, teria sido o suficiente, de acordo com o que repetia, para pagar as fraldas de todos os descendentes do seu pai. Inclusive o primo Matthew, cujo próprio pai, aviador, não sobreviveu nos bombardeios sobre a Alemanha. E a editora, apesar de amargar fracasso comercial atrás de fracasso, teve a boa sorte (sorte, talvez) de ser escolhida para abastecer as bibliotecas escolares da cidade com edições de autores locais muito bem reputados, pelo menos no âmbito municipal.
Às vezes, me parecia que sua obsessão pelos grandes sucessos era algo depressiva, pois é óbvio que, por conta disso, seus resultados diminuíam. Minha mãe, que procurava consolá-lo principalmente por ter publicado dois livros do tio Anthony, sem notar contribuía para afundá-lo numa amargura administrada com o vício do cachimbo e de um Bushmills redivivo mantido junto a uma coleção incompleta da Britannica, num armário baixo e sobre o qual ele mantinha uma pequena vitrola onde revezavam-se, às vezes, poucos discos, Ravel e Glen Miller são os de que me lembro mais. Quando o chiado da agulha de diamante começava a riscar os sulcos, nós sabíamos que o ritual estava em curso.
Um dia, tempos mais tarde, ele chegou antes de um compromisso e eu estava no escritório escutando, é claro, os garotos… Ele estava anuviado, algo sério havia acontecido e, sem dizer nada, passou por mim, retirou o long-play do aparelho e jogou pela janela aberta. E o disco nem era meu, era do primo Matthew…
Depois ele correu comigo dali, empurrando-me corredor afora. Fui parar na cozinha onde a mãe estava sentada preparando o chá das dezesseis horas, o seu horário de tomar o chá. Ela não viu que ele havia chegado, mas quando de lá tocou a Pavane ela se preocupou. Era a música que ele usava para escrever e então o certo era esperar por que ele terminasse. “Nem pense em incomodar o seu pai…”, ela sussurrou. Ele devia ter colocado o disco para tocar indefinidamente, pois aquilo durou quase toda a tarde.
O anoitecer de Manchester nessa época do ano é abrupto e, quando vimos, já era noite. Por minha conta, resolvi dar a volta na casa e escalar a parede para tentar ver o que acontecia, mas os pés escorregavam no limo e eu não alcançava a janela recostada. Essa ainda era nova… Nunca tinha visto a janela fechada, exceto nas suas viagens, quando ele orientava que mantivesse o lugar lacrado como um cofre de museu.
Fiz a volta e entrei novamente direto em direção à porta. Seria pela primeira vez arrombada, pensei. Azar…
A mãe detrás de mim dizia para eu tomar cuidado, mas na segunda tentativa a porta cedeu. O perfume do tabaco entrou ardendo em minhas narinas e olhos, mas avancei até onde ele estava debruçado sobre a mesa, ao lado de pelo menos nove edições diferentes do Ulysses e mais uma dezena ou mais de lombadas apareciam por detrás da enciclopédia. O Bushmills vazio indicava que ele talvez estivesse apenas dormindo, mas a cena era tão tétrica que toquei em sua jugular para sentir o batimento cardíaco, felizmente presente.
“Morto?”, perguntou a mãe. “Não…”, respondi. “A não ser que ele tenha morrido em 1922 e este aqui, afinal, seja apenas um fantasma de um garoto de vinte e poucos anos”, completei e saímos de volta, encostando a porta tal como a havíamos encontrando, quando a Pavane Pour Une Infante Défunte começou a soar, eu acho, pela vigésima ou trigésima vez naquela noite.
Lucio Carvalho nasceu em Bagé (RS) e mora em Porto Alegre (RS). Autor de “La Minuana” (2023, TAN), “Down House, 1858: o memorial de Charles Waring Darwin” (Dialogar/2024) e outros.
