POESIA

Poemas de Maria Emanuelle Osório Prates

Imagem: Louis Renard, Poissons, Ecrevisses et Crabes, 1754.

respiração de bicho forte
faz ferida nas paisagens

alguns arqueólogos acreditam
que a idade das pedras lascadas
trata-se na verdade da idade das
pedras estilhaçadas a mudança se
dá porque acreditam que os primatas
não lascavam com atrito de lagarta
pedra por pedra e sim com os estilhaços
da queda faziam suas lanças.
lançaram o artigo com o título: fazer armas
com os estilhaços
que nos caem

§

namazu

os peixes-remo medem aproximadamente seis
metros. quando aparecem, dizem aos japoneses
que é tempo de terremotos. a gramática diz:
sua saída causa terremoto. o beiço diz: o terremoto
causa sua saída. hoje, quando se vê um peixe-remo
sabe-se que é tempo de terremotos e tsunamis.
as relações da causa e consequência do influxo
e efluxo de humanos, por outro lado, ainda não
são totalmente conhecidas. há quem diga
que todo humano é prelúdio de incêndio.
há quem acredite que toda carbonização
é prelúdio de humano. não se sabe se houve
guerra por que existem humanos ou existem
humanos porque houve guerra.
aos humanos quando os vemos
resta contar a lenda de um primata que corre como
planta se esconde como pirilampo contempla kintsugi
e sabe como provocar terremotos

§

da possibilidade de encontrar
um psitacídeo intergaláctico

os grandes mamíferos das águas que são pescetarianos
não tomam coca, querem mergulhar
reduzir o consumo de coca ainda é produzir coca
tomar coca light ainda é produzir coca
reutilizar o vidro de coca ainda é produzir coca
reciclar o vidro de coca ainda é produzir coca
a pele do capitalismo adora esse tipo de cócegas
tomar nenhuma coca ainda é produzir coca
queimar queimar
a fábrica de cocas
algas vermelhas
na primeira vez que entrei no rio
fechei os olhos e mergulhei profundamente
fiquei com gosto de areia e sangue na pele
passei então
a mergulhar como quem para a noite se despe
não completamente, apenas o suficiente
sabendo que tanto na noite quanto no rio
a Areia sempre vem

Maria Emanuelle Osório Prates nasceu em Montes Claros (MG) em 15 de novembro de 2000. É autora de amarelo mostarda (Editora Nauta, 2024; semifinalista Prêmio Loba 2025), Pugilismo, segundo Lauren L., (Selo Capitolinas, 2026), Flor na Mulera (Sertão Pasárgada, 2026, no prelo) e Foram os peixes a inaugurar a linguagem (Macabéa Edições, 2026, no prelo). Integra a Equipe de poetas da FaziaPoesia e é membro do Coletivo Escreviventes e do Neomarginais. Possui textos publicados em mais de 60 revistas em português, inglês e espanhol. É etnoecóloga e doutoranda em Biodiversidade e Uso dos Recursos Naturais (PPGBURN) na Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES). Atua como educadora popular e ativista socioambiental. Desenvolve pesquisas em territórios tradicionais e investiga o papel das redes de troca na adaptação diante da incerteza socioambiental.

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