POESIA

Poemas de Maria Emanuelle Osório Prates

Imagem: Louis Renard, Poissons, Ecrevisses et Crabes, 1754.

na pleura foi fertilizada a várzea
poema do livro flor na mulera

o bicho humano é filhote de gravuras
nasce ternura de pés-de-ouro
saltitando Serra acima

deglutindo bananeiras
e estrelas

esperando nas vazantes
um barco
que nunca chegará

é preciso ensiná-lo
a plantar um barco

dizer que também
o bicho humano
é a transumância
farejando as sempre-vivas
navegando rumo as brânquias das colinas

dizer que a essa forma
em nossa língua
chamamos barco

(cada palavra mil e uma flor)

espera a canoa, filhote humano
o barco que sai
de dentro
da nossa caixa torácica

§

canoagem de papel, segundo Tia Tê

Tia Tê
tem uma pele preta perfeita
e os olhos fundos
de ressonância schumann
que ditam a frequência
e o ritmo dos dias

ouvi dizer certa vez
de um belorizontino
que no nordiminas
há ressonâncias
capazes de provocar
interferências
nos aviões

pensei nos olhos
de nuvem funda
de Tia Tê

se eles também sofriam
algum tipo de interferência
quando em aviões

perguntei a Tia Tê
se podíamos andar de avião

agora não

perguntei se ela
poderia me ensinar
a nadar no rio

Tia Tê
para de costurar
para me dizer
que não tinha rio
em Montes Claros

não desses
que dá pra nadar

tem o córrego Vieira
ela disse
pra não pular
pois quem pula
pode morrer

Tia Tê
tem as sobrancelhas
pretas e grossas de canoa boa
segurando os olhos
porosos da queda
inevitável dos dias

Tia Tê falava pouco
brincava muito
de esconde-esconde
de boneca de pano

Tia Tê fez uma asa de fada
de papelão, TNT e paêtes
rosas e azuis
assim eu tinha
o meu próprio avião
nas costas

eu gostava de ser
a professora
mas às vezes brigávamos
pois eu insistia
em escrever o
3 ao contrário
e o beijaflortudojunto

veja bem Tia,
o três precisa ser ao contrário
senão vão confundir
ele com o B
como é que se diz
1,2,B?

veja bem Tia,
não tem por que
usar o hífen,
se ele beija a flor
tem de ser tudo junto

Tia Tê era paciente

logo eu aprendi
que a gramática
não obedece
a evidente lógica das coisas

mesmo assim
Tia Tê disse
que faria
uma canoa de papel
para nadar
entre as pedras de São Tomé
no Quintal

perguntei
se a água
não ia desmanchar
os barcos

ela disse
que mesmo dissolvidos
dá pra canoar

a canoagem como esporte olímpico
nasce na Groenlândia
como o beijo dos esquimós,
essa esgrima de narizes
capaz de demolir iglus

a canoagem de papel,
por sua vez,
inaugurámos ali,
aos meus seis anos
aos trinta e dois dela

para manejar
uma canoa de papel
construímos um dia
de giz de cera verde caba-cana

um tempo de cola quente
que não tenha medo
de construir canoas
apesar das dissoluções

para dobrar o papel
na forma exata de uma canoa
portávamos apenas as mãos
e o palpite da etnomatemática

a única régua
para atravessar o recém -inaugurado
rio das formigas

chegar à margem
sob o suor do dia

regar o cabelo-de-anjo
dar de comer às galinhas

a aragem
a degradação das goiabas pisoteadas
nada mais são
que a mão
a prolongar-se

eu gostaria
de fazer uma canoa
onde fosse possível
guardar uma coleção de mãos
proteger a superfície dos dedos
contra o feitiço de enrugamento
que nasce da varinha
de água porosa
saindo da mangueira verde
que começa a ruir

Tê corta a parte ferida
continua a regar
peço para que ela deixe
a água acumular nos cantos
entre as pedras
para que os barcos tenham
um rio para atravessar

uma canoa de papel
tem mistérios
que apenas as formigas
decifram

e se as formigas
se desatentassem ao propósito
de embarcações
chegassem ao outro lado
sem levar o pedaço
de doce de amendoim
que tão arduamente carregaram,
por tanto tempo?

as canoas de papel são então
uma epígrafe das formigas
onde é melhor ser
o papel-madeira mofada
do que ao tocar a viagem
esquecer-se da carga
tornar-se água.

Maria Emanuelle Osório Prates nasceu em Montes Claros (MG) em 15 de novembro de 2000. É autora de amarelo mostarda (Editora Nauta, 2024; semifinalista Prêmio Loba 2025), Pugilismo, segundo Lauren L., (Selo Capitolinas, 2026), Flor na Mulera (Sertão Pasárgada, 2026, no prelo) e Foram os peixes a inaugurar a linguagem (Macabéa Edições, 2026, no prelo). Integra a Equipe de poetas da FaziaPoesia e é membro do Coletivo Escreviventes e do Neomarginais. Possui textos publicados em mais de 60 revistas em português, inglês e espanhol. É etnoecóloga e doutoranda em Biodiversidade e Uso dos Recursos Naturais (PPGBURN) na Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES). Atua como educadora popular e ativista socioambiental. Desenvolve pesquisas em territórios tradicionais e investiga o papel das redes de troca na adaptação diante da incerteza socioambiental. Linktree.

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