POESIA

Novos poemas de Nydia Bonetti

Imagem: Map of the City of Alexandria, Piri Reis.

Minuciosamente descreve teu lugar. É preciso.
Demarca todos os acidente naturais e artificiais
com exatidão.
Pontualmente dispõe
todos os objeto da superfície.
Esse representar no papel
a configuração
dessa porção que é tua — é arte — atua!
Insere tua aldeia no mundo
e então descansa
sob este céu que é teu e que também aguarda
(há tanto tempo) tua cartografia particular.

§

Esta cidade se situa no centro
de uma fenda no tempo.
Nas janelas há vultos de mulheres tristes
vestidas de negro
que ouvem “purple rain” ao entardecer.
E os sinos tocam
na torre da igreja que já ruiu.

§

Entre a palavra e seu mu(n)do reverso
existe uma espécie de limbo.
Viveiro de impossível silêncio e improvável canção.
Ninho vazio à espera do pássaro
— ou da serpente. Entrelugar de solidões profundas
e explosões de vida. Perdido
nas asperezas da selva de existir.

§

Noite, acolhe o meu silêncio
ainda maior que a tua
escuridão.
Curvam-se os ombros do mundo
ante tua sentença irrevogável.
Será noite enquanto
tu quiseres.
Longa feito um fio
de destecer memórias
rasa feito um rioonde flutuam lírios rituais
e velas — em busca do corpo
finalmente em paz.

§

Parecem enlouquecidos, os pássaros
quando o dia amanhece assim
sem sol
buscando nas vidraças — o brilho
que os impele a cantar.

§

Sinos de silêncio tocaram
nesta manhã absurda e fria
vindos da velha torre
da igreja em ruínas
anunciando a procissão
de fantasmas em busca
da cidade que havia.
Todos vindos
do deserto da palavra
não proferida
do gesto desfeito
bocas em chamas, mãos
feridas: — o inferno.

§

Um barco navega pelas ruas de pedra
dessa cidade náufraga.

Nydia Bonetti, 1958, engenheira civil. Escrevo para não enlouquecer — mais. Livros publicados: SUMI-Ê (2013), Editora Patuá; De Barro e Pedra (2017), Editora Urutau; Antologia Desvio para o vermelho (Treze poetas brasileiros contemporâneos) Coleção Poesia Viva/CCSP; Minimus Cantus, Projeto Instante Estante/Castelinho Edições; Tem poemas publicados na Revista Zunái, Mallarmargens, Germina, Sepé e outras.

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