POESIA

Poemas de Larissa Lins

Imagem: ilustração do livro Elementary anatomy and physiology. Chicago : S. C. Griggs & Co., 1869.

1.

Há sangramentos de origem desconhecida
e o sangue escurece já gangrenado
o aroma verte do corpo de teu filho
guardiã do orvalho
com espinhos cravados
graúna do deserto
o véu foi rasgado

§

2.

Faço poemas como quem fura a pele
cada verso navalha que não nega
escoria fere infecciona impele
esfola o sentido até que ele se entrega
no verso um sopro que não se sustenta
colapsa antes do verbo respirar
a rima cortada a cadência lenta
sem prognóstico sem lugar pra estar
ausculta estertores no canto esquerdo
há líquido espesso onde devia haver ar
opacidade em vidro fosco aberto
sangria dos rins prestes a piorar
a infecção não perfunde direito
a saturação despenca o olhar se ausenta
a sintaxe se congestiona no peito
e o ritmo o pulmão fragmenta

§

3.

Pro pulmão exausto
pra memória soterrada
pro rubor do sangue gasto
pra alma desamparada
luz que não cega
guia o espírito sem corpo
ritma os passos perdidos
devolve ao peito o sopro
chama que purifica
vento que não destrói
nome que não tem nome
antes de tudo que foi
debaixo do sapato
pulsa um coração
debaixo do coração
há outro coração
intacto

§

4.

No claustro o sol batia na tua mão
sobre a minha e eu acreditava
que nada iria romper o que ligava
nossa respiração à mesma estação
mas veio o Norte súbito em expansão
rasgando o céu com lâmina afiada
e a tua voz no vento foi levada
pra longe até romper o coração
agora o vento é morada e é fronteira
na secura do ar suspenso a tua ausência
me devolveu só metade inteira
guardo de ti a ancestral consciência
e sei que o Norte com a mão derradeira
retém o que resta da minha existência

§

5.

Carvão nos teus passos brasa em descaminho
a rua lavrada a enxadadas
o ferro range febril nas mãos que sozinhas
erguem motores abrem portões
na vigília teus ideais roem a casa
o mosto arde o mel queima
o sal ferve sob o sol
o homem depois do pai
a fala depois da voz
o fruto depois da filha
entre nós uma mansão que se ergue
se a memória é lâmina torta
remenda vultos no escuro
costura redemoinhos na carne que espera
na tua ausência adivinho
e sangro pelo
espinho que verte sombra
sobre o claro que não se explica

§

6.

Na voz emudecida o som ardece
pelo tubo um sopro de deserto
à meia-luz do quarto o anjo parece
lembrar as feras e as outras criaturas
saúda o sol irmão que tudo aquece
saúda a lua irmã que vela o pranto
saúda a morte irmã que nada esquece
e vem despir do corpo a alma em canto
louvado sejas pela chama pura
que nele inflama até ferir-lhe o flanco
na UTI o êxtase fulgura
as chagas vertem todo o mal no manto
do lume sacrossanto do sofrimento
pois quem perde o mundo acha o centro

Larissa Lins nasceu em Fortaleza, em 1989. Doutoranda e mestra em Estudos da Linguagem (PUC-Rio), com diversas especializações em Tradução (PUC-Rio, DBB e FGV), é visiting researcher no Departamento de Filosofia da Texas Tech University (EUA) e atua como tradutora do inglês e do francês, além de também ministrar aulas e oficinas. Seu livro de estreia em poesia, Ardósia (Urutau, 2022), foi eleito um dos melhores do ano pela revista 451.

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