ab ovo
descascar
o início de tudo
sem saber
por onde
terminar
desfiar
o lamento final
sabendo
que o fosso
é recomeço
(p. 9)
§
finito agora
desintegrar-se
diante do sal grosso,
a carne relento
no dorso da carroça,
eis o sono destino
do boi que cai
(p.29)
§
nota de refúgio
(de alguém que se esconde nos pântanos)
escapo-me desde séculos nos tubos
entre as folhas assando no fogaréu
resigno-me luta eterna de instante
não feito
(p.33)
§
tropeço no chão floresta
subir na montanha
sob a linha de cerol
a cada frase vazia
subir na árvore
de folha lavrada
em seu termo oculto
subir na noite
ao rastro engano
da palavra em si
subir pois tanto
para quem plaft
no umbigo próprio ruir
e de tanto subir
sobre gênese negada
saber bum se rebentar
eis-me, então, napë*
caindo no centro
da terra Yanomami
em chamas
* Expressão Yanomami cujo um dos seus significados é “estrangeiro”.
(p. 34)
§
síntese
(agora)
o dedo em riste
não só acusa
mata e morre
no meio da penúria
é a vanglória
que fica
(p. 59)
§
¿terra nullius?
… e então disseram
que não havia nada ali
poderiam fincar
bombas minas foguetes
à vontade, pois diziam:
“não existe nada ali”
(p. 66)
§
coda
a realidade surta
e com ela aquilo
que a nomeia
para quem serve
a finda palavra
“destruição”
(p. 79)
Samarone Marinho, poeta, escritor, ensaísta. É autor dos livros de poesia e conto Para quem (2025), Casa do alento (2023), Aonde for (2020), Beco da vida (2019), Ser Quando (2017; Finalista Prêmio Jabuti), Cão infância (2014), Rua sem nome (1. ed. 2017; 2. ed. 2023), Incêndios (2013; Prêmio Sousândrade), Atrás da vidraça (2011). Publicou ainda os ensaios Manoel ama lembrar (2014) e Os conceitos da natureza: ideia e experiência nos sistemas de Schelling e Humboldt (2025), todos pela 7Letras. Participou da Antologia do Poema em Prosa no Brasil, organizada por Fernando Paixão (Ateliê Editorial/Editora da Unicamp, 2024).
