pátina a esfolar as unhas
círculo de dor a ser rompido
estampa que não reconheço na sequência de reflexos
quando caminho pelas tardes amorfas e mudas
este ciclo não me desperta revolta
(ou fascínio romântico por sua vigília sem curvas)
lua de titânio colmeia de estrelas
dedos de glória e fracasso
há riso de escravos meninos
na lavoura da minha poesia
§
Deu praia
aves gorjeiam
lieds
on my mind
§
O que ficou
asas de cristal trincado
coladas com tímida mágoa
e alguma doçura
Vida, teu manto enfim me cabe.
Digo o nome do que me fere querendo dizer:
o que também perdoo.
Por aqui não se ouve o mar bater as asas
nem há flamboyants em carne viva
mas sem falha no faro salto resquícios de poças
e basta.
No fio resistente de fel pendurei lençóis branquíssimos
que agora festejam o vento.
A vida me concede mais uma vez a dança,
brasa, delícia.
§
Afinidade
Chamei, provoquei, dancei, xinguei, rezei, esperei
e nada dos deuses da escritura.
Mas veio o deus da lábia e me levou de leve
para o tal caminho, na lisura.
§
Celibato
Porém
ainda guardo
o estrondoso perfume
§
Dica
Amar sem soluços
Falar sem aspas
Pisar sem susto
§
Sangue de poeta
rubras uvas roubadas
estrelícias azuis amarelas
meras imagens que pipocam
onde me furto anêmica
farta desse luar nas veias.
§
un bateau indo meu batom leve mes lèvres livres noite côncava de rêves sem remos na relva de verde absoluto da montanha ecoam uivos de Whitman e dança o verbo no seu princípio cantiga de águas escuras certos ritmos não suportam vírgulas soluços de sereia não comportam aspas nem todos os versos bebem da amargura poesia é cheia de dedos pedra mole em água dura solo insondável seda pura.
§
Nocaute
Exagerei do decote
Sapequei-lhe
um verso de Goethe
Saí de fininho
§
Piazza vazia
Mergulho em seus olhos venezianos:
— Envelhecer é passar da paixão à compaixão?
Passa um avião. Ele nunca leu Camus.
Ledusha Spinardi ou simplesmente Ledusha, é uma poeta, jornalista, tradutora brasileira, nascida em Assis, São Paulo. Assinou a coluna de poesia Risco no Disco no jornal Folha de S. Paulo na década de 1990. Foi parceira de Cazuza e Lobão. Publicou os livros 40 graus (1980, Francisco Alves), Risco no Disco (1981, autopublicação; relançado em 2016 pela editora Luna Parque), Finesse & Fissura (1984, Brasiliense), Exercícios de Levitação (2002, 7 Letras), Notícias da Ilha – 31 Anos de Poesia (2012, Ed 7 Letras), e Lua na Jaula (2018, Todavia). Os poemas aqui publicados estão nos livros Lua na Jaula (Todavia, 2018) e Notícias da Ilha – 31 anos de poesia (7 Letras, 2012), reunião do trabalho da autora.
