POESIA, TRADUÇÃO - POESIA

Seis poemas de Blanca Varela

Imagem: Casa de La Literatura Peruana

Traduzido por Thomaz Albornoz Neves

Blanca Varela (Lima, 10 de agosto de 1926 – 12 de março de 2009) é considerada uma das vozes poéticas mais importantes da América Latina. Aos 16 anos, ingressou na Universidade Nacional de San Marcos para estudar Letras. Pertenceu à Geração de 1950. Em 1949, viajou para Paris, onde conheceu o poeta mexicano Octavio Paz. Em 1959, publicou seu primeiro livro, Ese puerto existe (Esse porto existe). Seguiram-se mais sete livros, todos reunidos posteriormente em um único volume intitulado Donde todo termina abre las alas (Onde tudo termina abre as asas) (2001). Entre os seus prémios mais prestigiados encontram-se o Prémio Octavio Paz de Poesia e Ensaio (2001), o Prémio Internacional de Poesia Federico García Lorca (2006), tendo sido a primeira mulher a ganhá-lo, e o Prémio Reina Sofía de Poesia Ibero-Americana (2007).

Curriculum vitae

digamos que venceste a corrida
e que o prêmio
era outra corrida
que não bebeste o vinho da vitória
mas o teu próprio sal
que jamais ouviste aplausos
mas latidos de cães
e que tua sombra
tua própria sombra
foi tua única
desleal antagonista

§

Curriculum vitae

digamos que ganaste la carrera
y que el premio
era otra carrera
que no bebiste el vino de la victoria
sino tu propia sal
que jamás escuchaste vítores
sino ladridos de perros
y que tu sombra
tu propia sombra
fue tu única
y desleal competidora.

§

Assim seja

O dia fica atrás
apenas consumido e já inútil
A luz imensa começa
todas as portas cedem diante de um homem
adormecido
o tempo é uma árvore que não cessa de crescer

O tempo
a imensa porta entreaberta
o astro que cega

Não se vence com o olhar
essa gota de luz que será
que foi um dia

Canta abelha, sem pressa
recorre o labirinto iluminado
da festa

Respira e canta
Abre asas onde tudo acaba
És o sol
o ferrão da aurora
o mar que beija as montanhas
a claridade total
o sonho

§

Así sea

El día queda atrás,
apenas consumido y ya inútil.
Comienza la gran luz,
todas las puertas ceden ante un hombre
dormido,
el tiempo es un árbol que no cesa de crecer.

El tiempo,
la gran puerta entreabierta,
el astro que ciega.

No es con los ojos que se ve nacer
esa gota de luz que será,
que fue un día.

Canta abeja, sin prisa,
recorre el laberinto iluminado,
de fiesta.

Respira y canta.
Donde todo se termina abre las alas.
Eres el sol,
el aguijón del alba,
el mar que besa las montañas,
la claridad total,
el sueño.

§

A meia voz

a lentidão é beleza
copio estas linhas alheias
respiro
aceito a luz
no ar ralo de novembro
na relva
sem cor
no céu rachado
e cinza
aceito o luto e a festa
não cheguei
não chegarei jamais
no centro de tudo
está o poema intacto
sol inevitável
noite sem virar a cabeça
rondo sua luz
sua sombra animal
de palavras
farejo seu esplendor
seu rastro
seus restos
tudo para dizer
que alguma vez
estive atenta
desarmada

sozinha quase
na morte
quase no fogo

§

a media voz

la lentitud es belleza
copio estas líneas ajenas
respiro
acepto la luz
bajo el aire ralo de noviembre
bajo la hierba
sin color
bajo el cielo cascado
y gris
acepto el duelo y la fiesta
no he llegado
no llegaré jamás
en el centro de todo
esta el poema intacto
sol ineludible
noche sin volver la cabeza
merodeo su luz
su sombra animal
de palabras
husmeo su esplendor
su huella
sus restos
todo para decir
que alguna vez
estuve atenta
desarmada

sola casi
en la muerte
casi en el fuego

§

Fonte

Junto ao poço cheguei
meu olho pequeno e triste
se fez fundo, interior

Estive junto a mim,
plena de mim, ascendente e profunda
minha alma contra mim
golpeando a pele
aprofundando-a no ar
até o fim

A poça escura aberta pela luz
Éramos uma só criatura
perfeita, ilimitada
sem extremos que o amor pudesse agarrar-se
Sem ninhos e sem terra para o jugo

§

Fuente

Junto al pozo llegué,
mi ojo pequeño y triste
se hizo hondo, interior.

Estuve junto a mí,
llena de mí, ascendente y profunda,
mi alma contra mí,
golpeando mi piel,
hundiéndola en el aire,
hasta el fin.

La oscura charca abierta por la luz.
Éramos una sola criatura,
perfecta, ilimitada,
sin extremos para que el amor pudiera asirse.
Sin nidos y sin tierra para el mando

§

Pessoa

o animal querido
cujos ossos são uma lembrança
um sinal no ar
nunca teve sombra nem lugar

desde a cabeça de um alfinete
pensava
ele era o ínfimo brilho
o grão de terra sobre o grão
de terra
o auto-eclipse

o animal querido
nunca cessa de passar
me ronda

§

Persona

el querido animal
cuyos huesos son un recuerdo
una señal en el aire
jamás tuvo sombra ni lugar

desde la cabeza de un alfiler
pensaba
él era el brillo ínfimo
el grano de tierra sobre el grano
de tierra
el autoeclipse

el querido animal
jamás cesa de pasar
me da la vuelta

§

História

podes contar-me qualquer coisa
crer não é importante
o que importa é que o ar mova teus lábios
ou que teus lábios movam o ar
que fabules tua história teu corpo
a toda hora sem trégua
como uma chama que a nada se parece
senão a uma chama

§

Historia

puedes contarme cualquier cosa
creer no es importante
lo que importa es que el aire mueva tus labios
o que tus labios muevan el aire
que fabules tu historia tu cuerpo
a toda hora sin tregua
como una llama que a nada se parece
sino a una llama

Blanca Leonor Varela Gonzáles (Lima, Peru, 10 de agosto de 1926 – 12 de março de 2009) recebeu o prêmio Raínha Sofia de Poesia Iberamaricana em 2007. É considerada uma das vozes mais significativas da lírica hispano-americana no século XX.

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