ENSAIO, POESIA

André Martins, em memória

Imagem: livre composição

Lucio Carvalho
Bagé – RS

A tarefa de sentar um tijolo na posteridade de um poeta que nunca fez questão da posteridade, nunca se empenhou sequer em publicar um livro, deve ser recebida não como incoerência, mas pelo que é óbvio: um reconhecimento. Mesmo que, tratando-se de quem se trata, acredito que um reconhecimento jamais almejado ou pretendido. Este é o caso do poeta André Martins, amigo e conterrâneo que morreu no ano de 2024, em Porto Alegre, aos 63 anos de idade.

Escritor versátil, jornalista e redator publicitário, é por poeta, no entanto, que desejo fazer esta apresentação póstuma. Como poeta eu o conheci na segunda metade dos anos 80, em Bagé, cidade do Rio Grande do Sul quase na fronteira com o Uruguai, onde vivíamos. Praticamente sozinho, ele encarnava como era possível o espírito da poesia marginal numa cidade interiorana, de economia rural e bastante conservadora. Para ele, tudo era superfície para a poesia: paredes e muros abandonados da cidade, jornais murais, jornais de mesa de bar, livretos e até a superfície virtual de tempos mais recentes. Mas, livro mesmo, não. O que, na minha opinião, é injusto pelo tanto que mobilizou a cidade pasmacenta quando lá praticamente nada acontecia em matéria cultural.

Por seu intermédio, vim a conhecer alguns dos poetas que nesta época ele apreciava: Leminski, os irmãos Campos, Ana Cristina César, Maiakovski, Bandeira e Drummond. Havia outros na sua estante, que não me ocorrem agora, mas destes eu lembro bem, pois me emprestou para que lesse. Mais tarde, numa crise criativa, ele se desfez de muitos destes livros de poesia e eu acabei ficando com alguns. Neles, a caligrafia precisa e desenhada de quem apreciava a poesia e arte gráfica na mesma medida denunciava um leitor ativo e inquieto.

Nessa mesma época, ainda em Bagé, criou um jornal que editava praticamente sozinho, apesar de reunir em seu entorno uma geração de autores que tinha pretensões de mobilizar na cidade um movimento cultural. Precisou que o tempo passasse, afinal, para que se entendesse a dimensão daquele momento e o que ali se realizava.

No fim daquela década, distanciei-me bastante da cidade e daqueles amigos, mas sempre mantive contato com ele. Poucas vezes para fazermos algo juntos, mas, felizmente, consegui ajudar a divulgar em vida alguns dos seus poemas na revista Sepé, em 2024. Ele já não nutria muitas expectativas com a publicação e eu praticamente decidi sozinho o que publicar: uma seleção de poucos poemas. Antes disso, que eu lembre alguns de seus poemas haviam aparecido apenas na revista Blocos Online, editada pela poeta Leila Míccolis. Mais remotamente, num livro artesanal em co-autoria com Jeferson Guedes. Afora isso, a crônica e a criatividade que emprestou às suas iniciativas e diversas agências publicitárias ao longo da vida.

Desapegado por essência, ainda não consigo saber se há mais de sua produção em poesia que tenha sido salva de um grande auto-expurgo que ele fez, ainda em Bagé, e do qual fui testemunha. Insatisfeito com as centenas de páginas datilografadas por ele numa Olivetti portátil, o poeta incinerou seus poemas sem lastimar por nenhuma daquelas folhas.

Desconheço se daquela produção guardou algo, porém os poemas que trago aqui são posteriores. Salvei-os diretamente de alguns blogues que ele manteve concomitante ao seu trabalho publicitário e também das redes sociais, nas quais às vezes lançava a sua produção. Por essa razão, são poemas representativos de uma época específica da sua escrita, não de tudo o que produziu. Mas isso pouco importa; aqui, pretende-se apenas mostrar um pouco de sua vida e de sua poesia, cujos registros precários, especialmente em Bagé, pelo tanto que ele fez na cidade, deveriam merecer uma edição a sua altura. O André tinha pelo menos 1,90 m de altura.

Quarto de hotel

O poeta Mario Quintana morava em hotel,
trabalhava no jornal da esquina onde publicava
sua coluna de ladrilhos e pastilhas de vidrotil,
sorvia nos bares das redondezas as taças de vinho
e percorria o mapa da cidade em aula de anatomia.

Ao que as pessoas lhe jogavam como flores nas ruas,
respondia com suaves gestos pantomímicos,
olhares lunares e palavras-confete,
e voltava ao seu quarto a passos lentos e dispersos.

(Onde colecionava os milhões de tons de cores
que o sol projetava como slides sobre o espelho
da penteadeira do rio e na arquitetura da cidade,
como se fora tela de cinema, todos os dias em
cartaz com sua narrativa de crepúsculo.)

Carregando balões de pensamentos nos bolsos e nacos de percepções nas retinas,
os deixava se esparramarem nas páginas de um canteiro de folhas brancas
para que brotassem sob a luz de um abajur fumarento, absorvido para dentro.

Só é possível ser poeta na cidade do interior nosso.

Um dia o hotel o despejou.

Os cataventos revoltados sopraram tanta ventania,
que o prédio na casa do poeta se transformou,
sem pele, sem ossos, apenas sua alma que sorria,
e percorre todos os espaços relendo o que inventou.

Se visitar a Casa Mario Quintana,
e se não escutar o que estará vendo,
você não a folheou.

§

Via láctea

Sentados no meio-fio da calçada,
no categórico silêncio de uma noite
de verão numa pequena cidade do
interior, dois guris encaram o açoite

da curiosidade que aquela imensidão
desperta em suas retinas e no que, lá
no detrás delas, entre as orelhas, busca
ser a forma de algum tipo de explicação.

Não há sim; tudo é não. Ou não? Sim,
não sabem, ignoram, tateiam a distância
como quem agora descobriu o sem fim.

Brilho há nas estrelas que parecem faróis
iluminando um mar obscuro no qual eles
são pequenos peixes fisgados por anzóis.

§

Cidades

As muito grandes fazem
tanto barulho que transformam
as vizinhas em dormitório.

As pequenas parecem
cenários abandonados
pelos personagens.

As que pararam no tempo
não percebem que foram
embaladas a vácuo.

As bem velhas têm a maior
densidade demográfica
de fantasmas.

As escuras são obscuras
como as suas prefeituras.

As que vivem às turras
com as vizinhas são burras.

As muito bem iluminadas
têm a maior população
de postes.

As novinhas cheiram
a tinta fresca. Não encoste.

As que têm muita gente
morando na rua são
indigentes.

§

O meu olhar

Desde a primeira vez que vi Pessoa,
supus que a pessoa que eu era seria
cópia mal-acabada, um heterônimo
abandonado rio abaixo numa canoa.

Veja: a única inocência é não pensar.
Isso é filosofia de quem diz não tê-la.
Em cada verso essa desfaçatez ébria.
Do vinho estaria ele a absorvê-la?

Olho o que ele fez com cada palavra,
espelho-me no vocabulário alquebrado,
frios sentimentos ocultos como larvas.

Serei sempre o que não nasceu para isso.
Como poderei declarar-me vencido com
tal precisão e ainda rimar, e ainda sonhar?

§

Maravilha

Não há nada mais belo que a chuva
molhando a fruta, escorrendo chão
ao fazer a música que combina a luz
do dia com aroma de noite de ilusão.

Não há nada mais sedutor do que a
aparição de algo que não se mostra
por inteiro ao mover os seus gestos
na direção do que pouco importa.

A fixação das coisas no seu lugar de
estar naquele instante é o que faz a
visão no belo entrar e se aprisionar.

No rastro do momento de sair virá
a memória costurando o que puder
para poder sempre se maravilhar.

§

sabe quando você escuta
abre parênteses
nunca escuta, eu sei
mas fingir faz parte das
condições normais da
nossa convivência pacífica
fecha

então vamos lá
sabe quando você escuta
poeta recitando poema

aquela voz mansa
etérea
diáfana
suave
branda

bobagem

o poema tem voz ativa
mesmo quando doce
saliva
se acaricia tem malícia

sua melancolia
arredada dos móveis da vida
como sempre
é coisa de suicida

sabe quando você escuta
polícia

finja

§

Epílogo

No fim de tudo, descem os créditos,
finda até mesmo o bis em reverência,
corpo vazio de conteúdo e substância,
a epígrafe subscreve uma existência.

Tudo já teve seu caminho traçado.
Do som ouve-se nem mesmo o eco.
Do cheiro vem apenas rastro insosso.
A luz nem trevas deixa como legado.

A lembrança resiste entrincheirada,
mas logo não haverá ninguém para
acessar a entrega e missão devotada.

O fim é uma pedra sobre o assunto.
Afunda a nau à deriva sem náufrago.
Aqui jaz o poema com os pés juntos.

Lucio Carvalho nasceu em Bagé (RS) e mora em Porto Alegre (RS). Autor de La Minuana (TAN/2023), Down House, 1858: o memorial de Charles Waring Darwin (Dialogar/2024) e outros.

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