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Palavra e rosto

Imagem: Ateliê/Divulgação.

Lucio Carvalho
Bagé – RS

Publicado em 2010 pela Ateliê Editorial, Palavra e rosto é um livro no qual o poeta, ensaísta e professor Fernando Paixão reúne apontamentos e reflexões assistemáticas a respeito especialmente da arte poética.

O intuito do livro? De acordo com o autor, fixar impressões, situações vividas e intuições “aproximando-se do tom poético”, justamente relacionadas ao campo da poesia. São textos avulsos que, ao formarem certa identidade, o autor se decidiu por encorpá-los na forma de um livro ilustrado pelo artista plástico Evandro Carlos Jardim.

Livro de detalhes e meandros, Palavra e rosto muitas vezes é irônico e certeiro, trazendo o traço da crítica. Noutras, lírico, é mero apelo ao leitor para que se deixe levar por pensamentos brumosos, mal despertos, e que o autor vislumbrou num afastamento da criação, o qual, todavia, mostra-se próximo e sempre interessado ao gênero que circunda as reflexões livres que compõem o livro. O livro pode ser obtido por meio do link de acesso disponível na seção de “livros” da Especiaria.


Concurso de batatas

Convergem para um concurso de poesia páginas e páginas, às centenas, como se formassem juntas uma folhagem alimentada por uma usina de razões elementares, ao mesmo tempo que sutis. De início, temos a evidência soberana de um “sensacionismo” esparramando-se em versos confessionais, a que o abuso do “eu” serve de mote acelerador. A prática poética, espécie de fonte de Téspias em que Narciso sacia à sede, serve de redemoinho às vozes interiores; tomam-se as frases por vielas de destinos que se almejam além.

Torna-se natural que aqui e ali os substantivos abstratos apareçam vigorosos: assemelham-se a uma saudável plantação de batatas! Mas, como em toda martelada, monótona, percebe-se logo um repertório por demais repetitivo: é o corpo da mulher, a criança, o rio e as montanhas; é o fascínio da noite, o automóvel que corta a avenida, a chuva, o sexo bem sucedido… são montes e montes de páginas escritas ao modo de uma sedução. Assinatura pessoal, fotogramas de uma experiência gravada em letra impressa.

Logo, pode-se inferir que a prática poética possibilita uma das modalidades possíveis de cidadania — para escrever poemas, no mínimo o autor há de se tomar por cidadão e exercer essa potência. Talvez. A outra hipótese acena em direção oposta: o fluir incessante de versos tão ligados ao coração sugere na verdade um teatro de paixões, considerados os enganos e as epifanias.

A voz interior dos poetas espia as feições do próprio rosto. Mesmo quando invocam a dor, a lâmina do sofrimento ajuda a tornar presente o furtivo gosto por si mesmo. Narcisismo barato e previsível-tão-somente. Batatas ao vencedor, portanto.

Fernando Paixão nasceu em Portugal e vive em São Paulo desde a infância. De início, teve uma longa carreira como editor profissional; nessa área, organizou Momentos do livro no Brasil (1995, Prêmio Jabuti). Em 2009, ingressou na docência acadêmica e, desde então, leciona literatura no Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo. Seu campo de interesse abrange a literatura brasileira e a portuguesa, sobretudo nos temas relacionados aos gêneros literários e suas rupturas estéticas. Publicou diversos livros de ensaio e dedica-se também à poesia, com seis livros editados.

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