CONTO, PROSA

Gestalt

Imagem: Reprodução.

Hilda Hilst
Jaú – SP

Absorto, centrado no nó das trigonometrias, meditando múltiplos quadriláteros, centrado ele mesmo no quadrado do quarto, as superfícies de cal, os triângulos de acrílico, suspensos no espaço por uns fios finos os polígonos, Isaiah o matemático, sobrolho peluginoso, inquietou-se quando descobriu o porco. Escuro, mole, seu liso, nas coxas diminutos enrugados, existindo aos roncos, e em curtas corridas gordas, desajeitadas, o ser do porco estava ali. E porque o porco efetivamente estava ali, pensá-lo parecia lógico a Isaiah, e começou pensando spinosismos: “de coisas que nada tenham em comum entre si, uma não pode ser causa da outra.” Mas aos poucos, reolhando com apetência pensante, focinhez e escuros do porco, considerou inadequado para o seu próprio instante o Spinoza citado aí de cima, acercou-se, e de cócoras, de olho-agudez, ensaiou pequenas frases tortas, memorioso: se é que estás aqui, dentro da minha evidência, neste quarto, atuando na minha própria circunstância, e efetivamente estás e atuas, dize-me por quê. Nas quatro patas um esticado muito teso, nos moles da garganta pequeninos ruídos gorgulhantes, o porco de Isaiah absteve-se de responder tais rigorismos, mas focinhou de Isaiah os sapatos, encostou nádegas e ancas com alguma timidez e quando o homem tentou alisá-lo como se faz aos gatos, aos cachorros, disparou outra vez num corre gordo, desajeitado, e de lá do outro canto novamente um esticado muito teso e pequeninos ruídos gorgulhantes. Bem, está aí. Milho, batatas, uma lata de água, e sinto muito o não haver terra para o teu mergulho mais fundo, de focinhez. Retomou algarismos, figuras, hipóteses, progressões, anotava seus cálculos com tinta roxa, cerimoniosa, canônica, limpo bispal. Isaiah limpou dejetos do porco, muito sóbrio, humildoso, sóbrio agora também o porco um pouco triste esfregando-se nos cantos, um aguado-ternura nos dois olhos, e por isso Isaiah lembrou-se de si mesmo, menino, e do lamento do pai olhando-o: immer krank parece, immer krank, sempre doente parece, sempre doente, é o que pai dizia na sua língua. E doença não é Hilde? Hilde sua mãe, sorria, Ach nem, é pequeno, é criança, e quando ainda somos assim, sempre de alguma coisa temos medo, não é doença Karl, é medo. Isaiah foi adoçando a voz, vou te dar um nome, vem aqui, não te farei mais perguntas,vem, e ele veio, o porco, a anca tremulosa roçou as canelas de Isaiah, Isaiah agachou-se, redondo de afago foi amornando a lisura do couro, e mimos e falas, e então descobriu que era uma porca o porco. Devo dizer-lhes que em contentamento conviveu com Hilde a vida inteira. Deu-lhe o nome da mãe em homenagem àquela frase remota: sempre de alguma coisa temos medo. E na manhã de um domingo celebrou esponsais. Um parênteses devo me permitir antes de terminar: Isaiah foi plena, visceral, lindamente feliz. Hilde também.


(…) Retirada na Casa do Sol, em meio a dezenas de cachorros, a "monja devassa" encampou a sentença de que trilhar o próprio camih reuqer força da vontade, a dureza e a capacidade para decisões argas. Isso coincide com a o devir incessante da vida: experimentar as próprias experiências em favor de uma vis creativa, reavaliar os sentidos da vida através de prismas poéticos.

(…)

Eis o aprendizado radical, seminal, de HH: a partir do caos, nvos valores são sempre recriados, atendendo a uma outra lógica – que não a binária usual. Uma coisa, entre tantas, agora sólida fica: a obra portentosa de Hilda Hilst sempre sugeriu uma espécia de consciência ambiental, uma postura apta a extrair do campo da escrita esse potencial poético de tornar o humano um ser múltiplo, quem sabe uma dimensão reinventora de signos, mistos e duplos. Afinal, é o espírito lúdico, contido no plano estético da existência, que sempreimpulsiona o artista a criar.

Flávio Boavntura

In: Boaventura, Flávio. A máscara inquieta: ensaios sobre filosofia e poesia. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009.


Hilda de Almeida Prado Hilst, mais conhecida como Hilda Hilst, foi uma escritora, poeta, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. É considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX. (Wikipedia) Hilda Hilst Jaú – SP A convergência improvável de criatura e humana e animal num conto publicado em 1977, no livro Ficções.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *