Traduzido por Aurea Garibaldi e Guila Azevedo
Os poemas integram ‘After’, que será publicado em breve.
THE DAY
It hangs on its
stem like a plum
at the edge of a
darkening thicket.
It’s swelling and
blushing and ripe
and I reach out a
hand to pick it
but flesh moves
slow through time
and evening
comes on fast
and just when I
think my fingers
might seize that
sweetness at last
the gentlest of
breezes rises
and the plum lets
go of the stem.
And now it’s my
fingers ripening
and evening that’s
reaching for them.
§
O DIA
Ele se sustenta em seu
caule como uma ameixa
à beira de um
matagal escuro.
Ele cresce e
enrubesce já maduro
eu estendo o
braço para colhê-lo
mas a carne se move
lenta pelo tempo
E a noite
chega célere
E quando eu
acho que meus dedos
poderiam finalmente
agarrar aquela doçura
sopra a mais
suave brisa
e de seu galho
a ameixa se solta.
Agora meus dedos é
que envelhecem
e a noite que
os alcança.
§
STREET VIEW (A VISITATION)
He still drops in occasionally on my dreams
with pointless scraps of news from the afterlife,
so when the image of his old house loaded
and there he stood, loitering like a ghost
in the front yard, it wasn’t a total shock.
His back is turned, so Google hasn’t had
(I’m oddly grateful for this) to blur his face.
He stands between his mailbox and a newly
transplanted dogwood whose white flowers seem
too big for its thin trunk. It’s spring: the redbud
is blooming too and the oak is leafing out
with that unspeakably bright chartreuse of April.
His left hand rests on his hip, his right is clutching
mail he must have taken from the box.
He’s likely thinking of something quite mundane
(lawn care, I’d guess), but somehow the tableau—
he’s dressed in white, his head is slightly bowed—
puts me in mind of an aging, wingless Gabriel
reliving his famous scene, recalling his lines,
perhaps, or the odd look on Mary’s face.
The photo, Google says, is five years old:
he’s 81, has three years left. If it’s Friday,
we’ll all be joining him, in an hour or two,
for pizza. He’ll have cleared his sprawl of papers
from the dining table to make room for us,
there’ll be a box of red wine on the counter,
some glasses. On a warm spring day like this,
I’ll take the kids outside to play in his creek,
catch minnows and crayfish, till the pizza comes.
If not, he’ll likely come to our place soon…
The world is never so much with us as when
it’s gone. I stare at the screen, fingers on trackpad,
zooming and panning through the diorama.
No matter the angle, my father’s looking away.
Now I become the car with its high-tech rig
of cameras: I approach, and slowly pass,
and all the while the man stands facing the oak,
as if he had some news to tell it—perhaps
those letters in his hands are some top-secret
summons or message it’s his job to deliver?
And so he’s Gabriel again, a messenger,
white dogwood blooms instead of a lily stalk,
the iconography clear, except he’s old,
he has no wings, there’s no Mary here.
It took one year for the cancer to do its job,
a year in which I saw him almost daily.
I like to think he had important things
he could have told me had he chosen to.
Or was it up to me to ask some question?
Instead of asking, I fenced his yard with cedar
for his old dog. Instead of telling, he
turned on the television so we could watch
John Wick, the Spurs. So much time together,
so little said about the things that matter.
(I haven’t started going through his papers;
perhaps the important messages are there.)
It was as if his back, I think, had always
been turned. With every click I half expect
the man on the screen to look, at last, toward me,
who longs to see his face, who dreads the smear.
§
VISÃO DA RUA (UMA VISITA)
Ocasionalmente ele ainda aparece em meus sonhos
com inúteis fragmentos de notícias do pós-vida,
então a imagem de sua velha casa aparece na página
e lá está ele, vagando como um fantasma
no jardim da frente, não foi um choque total.
Ele de costas, então o Google não precisou
(e sou estranhamente grato por isso) embaçar seu rosto.
Ele está entre a caixa do correio e um corniso
recentemente transplantado cujas flores brancas parecem
grandes demais para seu fino tronco. É primavera: a olaia
também está florindo e o carvalho está perdendo as folhas
com aquele indescritível amarelo esverdeado de abril.
Sua mão esquerda descansa no quadril, sua direita segura
a correspondência que ele acabara de pegar na caixa de correio.
Ele provavelmente está pensando em algo bem cotidiano
(cuidar do gramado, talvez) mas de alguma forma a imagem—
ele veste branco, sua cabeça está levemente inclinada—
me faz pensar num anjo Gabriel idoso e sem asas
revivendo sua famosa cena, relembrando suas falas,
talvez, ou o estranho olhar para o rosto de Maria.
A foto, diz o Google, tem cinco anos:
ele tem 81, tem ainda três anos de vida. Se for sexta-feira,
iremos todos para sua casa, dentro de uma ou duas horas,
para uma pizza. Ele já terá tirado os papéis espalhados
na mesa de jantar para criar espaço para nós,
haverá uma caixa de vinho tinto num canto,
algumas taças. Num dia morno de primavera como esse,
levarei as crianças para fora para brincar na enseada,
pegar peixinhos e lagostins, até a pizza chegar.
Se não for, ele provavelmente logo virá para nossa casa …
O mundo nunca é tão presente em nós como quando
ele já se foi. Encaro a tela, dedos no mouse,
dou zoom e panorâmica no diorama.
Não importa o ângulo, meu pai olha para longe.
Agora eu me transformo no carro de câmeras de
alta tecnologia: eu me aproximo e passo lentamente,
e durante todo esse tempo o homem olha o carvalho,
como se ele tivesse notícias para lhe contar— talvez
aquelas cartas em sua mão sejam uma convocação
ultra secreta ou uma mensagem que ele precisa entregar?
E então novamente ele é Gabriel, um mensageiro,
corniso branco floresce ao invés do ramo de lírio,
a iconografia é clara, exceto por um senão: ele é velho,
não tem asas, e aqui não há Maria.
O câncer levou um ano para concluir seu trabalho,
um ano no qual eu o via quase diariamente.
Gosto de pensar que ele tinha coisas importantes
para me contar, caso assim o quisesse.
Ou será que eu é que deveria ter perguntado?
Ao invés de perguntar, cerquei seu quintal com cedro
para o seu velho cão. Ao invés de conversar, ele
ligava a televisão para que assistíssemos
John Wick, do Spurs. Tanto tempo juntos,
e tão pouco falamos sobre as coisas que importam.
(Ainda não comecei a examinar seus papéis;
talvez as mensagens importantes lá estejam.)
Era como se suas costas, acho, tivessem sempre estado
viradas para mim. Com cada clique eu talvez esperasse
que o homem na tela, por fim, olhasse para mim,
que anseio ver seu rosto, e odeio ver a imagem embaçada.
§
BETRAYAL
There was betrayal, father, when you broke
the pact we’d sealed one evening with two snuffed
cigarettes: that neither of us would smoke
again if the other didn’t. But why am I left
tonight— though thirty years have passed and death
has stretchered you, gasping for air, away—
dwelling again on that day,
your voice, your breath,
as you (lost in the rush
of a fresh crush)
tell me your latest news… The reek
of you a proof, I thought, of weakness
of love. I’d wanted you to save me, father,
by saving yourself— for us to save each other.
That you couldn’t, or wouldn’t,
was something I didn’t
want ever to have learned,
a truth that burned
down the throat of my lives,
back, toward my birth,
my forth, toward future children, future wives…
§
TRAIÇÃO
Foi traição, pai, quando você quebrou
o pacto que tínhamos selado uma noite com dois cigarros
apagados: que nenhum de nós fumaria
novamente se o outro não o fizesse. Mas por que me sinto
abandonado esta noite— embora passados trinta anos
e a morte te levado na maca, lutando por ar, indo embora—
revivendo novamente aquele dia,
sua voz, sua respiração,
enquanto você (perdido no turbilhão
de uma nova paixão)
conta-me suas últimas novidades… O teu cheiro forte
uma prova, pensei, de fraqueza
do amor. Eu queria que você me salvasse, pai,
salvando você mesmo— para salvarmos um ao outro.
Que você não poderia, ou não quereria,
era algo que eu jamais
queria ter aprendido,
uma verdade que queimava
no fundo da garganta de minhas vidas,
lá atrás, em direção ao meu nascimento,
e à frente, para futuras crianças, futuras esposas …
§
VIEW FROM MY DESK
How me of him, I think, as I look up
to see my old dog running along
the shadow of a high branch
barking and now leaping hopefully up
toward the squirrel running along
the actual branch.
§
VISTA DA MINHA ESCRIVANINHA
Quanto de mim há nele, penso, enquanto olho
para ver meu cachorro correndo ao longo
da sombra de um alto galho
latindo e saltando esperançoso
atrás de um esquilo correndo ao longo
do real galho
§
EATING EARLY CHERRIES
AND THINKING OF PAVESE
1.
He died in Turin in the summer. In summer,
Turin feels as large and bare
and resonant as an empty square.
Sky rinsed with milk, clear but not luminous.
A river that’s wide and flat as any highway
but lends no cool, no moisture to the air.
None of his friends were there.
He chose, for his death, a day
(the 27th) like any other
in that torrid August. He chose a room
(346) in an anonymous hotel,
and packets (12) of sleeping powder
dissolved in a glass of water.
He wanted to die, there in his own city,
like a stranger.
2.
Ten years before,
late one spring, early in the war,
he’d visit his friends Natalia and Leone
bearing fresh cherries.
They’d see him, from their window,
appear at the end of their street, striding their way
to talk about a book,
or the appalling news of the day,
chewing the fruit and, with a sidelong look,
firing each pit against the pitted wall.
He liked the early cherries, the small,
watery ones—he said they had the “sapore
di cielo.” He’d pull them one at a time
from the pocket of his coat—
a gesture that seemed lavish and miserly at once—
to give his friends a chance
to taste them too. For the rest of her life, Natalia wrote,
whenever she ate an early cherry
she’d think of Cesare
and of the fall, that spring, of France.
3.
Numbers need no translation:
346, 12, 27.
As for “sapore di cielo,”
some render it as “taste of heaven” —
one can see why.
But have you eaten early cherries lately?
To me they taste like sky.
§
COMENDO AS PRIMEIRAS CEREJAS
E PENSANDO EM PAVESE
1.
Ele morreu no verão em Turim. No verão,
Turim lembra uma grande e nua
e ressonante praça vazia.
O céu banhado de leite, claro porém não luminoso.
Um rio que é largo e plano como qualquer estrada
mas sem o ar refrescar ou umedecer.
Nenhum de seus amigos lá estava.
Para sua morte, ele escolheu um dia
(27) como outro qualquer
naquele tórrido agosto. Ele escolheu um quarto
(346) em um hotel anônimo,
e pacotinhos (12) de sonífero
em um copo d’água dissolvidos.
Ele quis morrer, lá em sua própria cidade,
como um desconhecido.
2.
Dez anos antes,
num final de primavera, no início da guerra,
ele visitava seus amigos Natália e Leone
levando cerejas frescas.
Eles o avistavam, de sua janela,
aparecendo no final da rua, caminhando em direção a eles
para falar sobre um livro,
ou as pavorosas notícias do dia,
comendo a fruta, com seu olhar de esguelha,
atirando os caroços no muro já por eles marcado.
Ele gostava das primeiras cerejas, as pequenas,
suculentas— ele dizia que tinham o “sapore
di cielo”.” Ele costumava tirá-las uma a uma
do bolso de seu casaco— um gesto que parecia generoso
e ao mesmo tempo mesquinho—
para dar a seus amigos a chance
de prová-las também. Até o final de sua vida, Natália escreveu,
toda vez que ela comia as primeiras cerejas
de Cesare se lembrava
e do outono, e daquela primavera, e da França.
3.
Números dispensam tradução:
346, 12, 27.
Quanto a “sapore di cielo,”
alguns entendem como “sabor de céu”_
pode-se ver por quê.
Mas tens comido as primeiras cerejas ultimamente?
Para mim elas tem gosto de firmamento.
Geoffrey Brock é autor de três livros de poemas, o mais recente deles After (2024); editor de The FSG Book of Twentieth-Century Italian Poetry (2012); e tradutor de mais de uma dezena de volumes de poesia, prosa e quadrinhos, principalmente do italiano. Sua tradução de Allegria, de Giuseppe Ungaretti (2020), recebeu o Prêmio Nacional de Tradução de Poesia da ALTA.

Um comentário sobre “5 poemas de Geoffrey Brock”