POESIA, TRADUÇÃO - POESIA

Jerzy Ficowski traduzido

Imagem: Reprodução.

Traduzido por Piotr Kilanowski e apresentado por Aguinaldo Medici Severino.
Os poemas integram ‘A leitura das cinzas’,  publicação da Âyiné
de 2018.

Li os poemas de Jerzy Ficowski reunidos em A leitura das cinzas na mesma época em que lia o impressionante ensaio de Joseph Czapski, Proust contra a degradação. Esses dois senhores poloneses, cada um a seu modo e com suas distintas nobres artes, engrandeceram seu país. Czapski lutou nas forças regulares polonesas e foi prisioneiro dos russos durante a segunda grande guerra; Ficowski lutou como membro da resistência polonesa neste período e foi prisioneiro dos nazistas. Sobreviveram por acaso. Poderiam ter sido somados a milhões de mortos. Com a ascensão do comunismo na Polônia ambos foram censurados e perseguidos. No caso de Ficowski sua obra poética, ensaística e tradutória granjeou a ele respeito e admiração oficial na Polônia apenas já no final de sua vida (ele morreu no inicio deste século XXI), muito embora era reconhecido fora de seu país desde os anos 1980. Ficowski suportou o antissemitismo por décadas e é especialmente conhecido por ter produzido poemas sobre o Shoah, o extermínio dos judeus nos campos de concentração nazistas, e também por ter salvo do esquecimento a obra de Bruno Shulz, admirável escritor e pintor polonês. Os poemas reunidos em A leitura das cinzas tratam exatamente do Shoah. São 25 peças poéticas, que demonstram um poeta que transforma uma das cousas mais abomináveis já perpetradas pelo homo sapiens em arte sublime, em um registro que evita um segundo assassinato, um segundo holocausto, que seria o da memória. Testemunha da tragédia e capaz de dar sentido poético a toda aquela selvageria, Ficowski nos fala das crianças judias no gueto, dos infinitos instantâneos da morte, dos vestígios que restam da cultura judaica na Polônia comunista, das cinzas que calcinaram aquele povo. A edição é bilíngue e a tradução assinada por Piotr Kilanowski, polonês radicado no Brasil há 30 anos. Em uma boa introdução Piotr nos ensina sobre as dificuldades tradutórias que enfrentou, as escolhas que fez. Cada poema é acompanhado de notas curtas porém muito ricas, que explicam para o leitor a razão de certos assombros e eventuais enigmas. Gostei dos poemas, mas o que mais me tocou foi um sem título, que segue assim: “Muranów se ergue / sobre camadas do morrer / a fundação apoiada em osso / os porões nas valas esvaziadas de gritos // Foi ou não foi está como está // Há uma calmaria de gemidos removidos / halo negro do fogo defunto / Muranów firmemente plantado / na sepultura da memória / a maioria das cartas chega // Foi ou não foi está como está // E eu como ele elevado / até a superfície das cinzas / sob as estrelas de vidro estilhaçado // Foi ou não foi está como está // eu queria apenas calar / mas calado minto / eu queria apenas andar / mas andando pisoteio.” Cabe registrar que Muranów é um bairro de Varsóvia, no qual se encontrava grande parte do terreno do gueto judaico, totalmente destruído após o levante de 1943 e deliberadamente reconstruído após a grande guerra de forma a não permitir que os vestígios da vida no gueto e da matança ali acontecida fossem um dia recuperados. Impressionante e forte livro. 

O SILÊNCIO DA TERRA

O tempo aqui, só o pica-pau conta, o cuco
avisa as horas.

Um dia andaram por aqui chorando, o
zimbro os chacoalhava pelas abas.

Faz anos jazem aqui fuzilados no
profundo silêncio da terra.

As árvores não erguem os ramos em desespero
não brotam dos troncos os rostos os olhos
não rebentam dos rebentos.

O grito não rompe os anéis do tronco, a
terra não rasga a relva, não arranca de si
os lençóis de tomilho.

As tílias não prendem as suas fragrâncias,
os cereais não temem crescer os caminhos
não fogem para os campos.

Não gemem as pedras do caminho não
se esmigalha o ar liso o vento não
suspira.

E não dizem uma palavra nem uma
folha, nem um grão de areia

os devorados pelas raízes dos pinheiros.

§

MILCZENIE ZIEMI

Czas tutaj rylko dzięcioł liczy,
kuktdka godziny oznajmia.

Szli tçdy kiedys placzący,
jafowiec za poły icli szarpal.

Od lar tu lezą rozstrzelani
w głębokim milczeniu ziemi.

Nie zatamują drzewa gałęzi
nie kielkujq z konarów twarze,
oczy nie wykluwają siç z pąków.

Krzyk nie rozsadza slojów drewna, nie
rozdziera ziemia murawy, nie zrywa z
siebie placht macierzanki.

Lipy nie zamykają swoich zapachów,
zboza nie bojq siç rosnąc,
drogi nie uciekają w pola.

Nie jęczą przydrozne kamienie,
nie kruszy się ghidkie powietrze,
nie westchnie wiatr.

Kryzk nie odzywajią się slowem
ani lisciem, ani piaskiem

pozarci przez korzenie sosen.

§

* * *

Não consegui salvar nem
uma vida não soube descer
nem uma bala

então percorro cemitérios
que não existem
busco palavras
que não existem
corro

para o socorro não pedido
para o resgate tardio

quero chegar a tempo
mesmo que tarde demais

§

* * *

nie zdołałem ocalić
ani jednego życia

nie umiałem zatrzymać
ani jednej kuli  

więc krążę po cmentarzach
których nie ma
szukam słów
których nie ma
biegnę  

na pomoc nie wołaną
na spóźniony ratunek

chcę zdążyć
choćby poniewczasie

§

5 VII 1942

À memória de Janusz Korczak

O que fazia O Velho Doutor
no vagão de gado
que ia a treblinka no dia 5 de agosto
durante umas horas de circulação do sangue
pelo sujo rio do tempo

não sei

o que fazia o Caronte voluntário
o barqueiro sem remo
será que doou às crianças o resto
do alento ofegante
e deixou para si
só o frio pela espinha

não sej

será que que mentia a elas por exemplo
em pequenas doses
anestesiantes
catava nas cabecinhas suadas
os ariscos piolhos do medo

não sei

mas por isso mas depois mas lá
em treblinka
todo o pavor delas todo o choro
eram contra ele

ah mas eram apenas
alguns minutos ou seja a vida inteira
se é muito ou pouco
não estava lá não sei

viu de repente o Velho Doutor
que as crianças se tornaram
velhas como ele
cada vez mais velhas
e assim tiveram que alcançar o grisalho das cinzas

então quando foi espancado
por um askari ou um ss
viram que o Doutor
tornou-se criança que nem elas
cada vez menor e menor
até que não nasceu

desde então junto com o Velho Doutor
está cheio delas em lugar nenhum

isso sei

§

5 VII 1942

Pamiçci Jatmsza Korczaka

Co robił Stary Doktor
w bydlęcym wagonie
jadącym do treblinki dnia 5 sierpnia
przez kilka godzin krwiobiegu
przez brudną rzekę czasu

nie wiem

co robił Charon dobrowolny
przewoźnik bez wiosła
czy rozdał dzieciom resztę
zdyszanego tchu
i zostawił dla siebie
tylko mróz po grzbiecie

nie wiem

czy kłamał im na przykład
małymi dawkami
znieczulającymi
iskał spocone główki
z płochliwych wszy strachu

nie wiem

ale za to ale potem ale tam
w treblince
całe ich przerażenie cały płacz
były przeciwko niemu

ach to było już tylko
ileś tam minut czyli życie całe
czy to mało czy dużo
nie było mnie tam nie wiem

zobaczył Stary Doktor nagle
że dzieci się stały
stare jak on
coraz starsze
tak musiały dogonić siwiznę popiołu

więc kiedy go uderzył
askar czy esesman
zobaczyły że Doktor
stał się dzieckiem jak one
coraz mniejszym i mniejszym
aż się nie urodził

odtąd razem ze Starym Doktorem
pełno ich nigdzie

wiem

Jerzy Ficowski (1924–2006) foi um poeta, ensaísta, tradutor e pesquisador da cultura cigana da Polônia. Nascido em Varsóvia, participou da resistência polonesa durante a Segunda Guerra Mundial, atuando no movimento clandestino contra a ocupação nazista. Após a guerra, estudou filosofia e sociologia, mas dedicou grande parte da vida à literatura. Ficowski tornou-se conhecido tanto por sua poesia quanto por seus estudos sobre os romani (ciganos) e sobre a obra do escritor e artista Bruno Schulz, de quem foi um dos principais divulgadores no pós-guerra. Sua produção poética combina lirismo, memória histórica e reflexão ética, frequentemente abordando temas como o Holocausto, a guerra, a marginalização e a identidade cultural. Além da poesia, escreveu livros infantis, letras de músicas e traduções. Durante o regime comunista polonês, enfrentou censura por apoiar movimentos democráticos e intelectuais dissidentes. Hoje é considerado uma das vozes mais importantes da literatura polonesa do século XX.

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