um cassaco é um mamífero marsupial
que habita os sertões do brasil
um Didelphis albiventris – um cassaco
é também um timbú um saruê
um gambá-de-orelhas-brancas
pode numa só fetação gerar doze filhotes
tendo de duas a três gestações por ano
um cassaco tem uma vida média de quatro anos
e tem hábitos noturnos
se atormentado libera odores fétidos
de glândulas de suas axilas
para espantar predadores
se estimulado sexualmente libera os mesmos odores
para atração do parceiro
um cassaco é um ser que sente fome
como um cassaco
um ser humano também sente fome
com fome um cassaco ataca animais diurnos
e os devora
um cassaco com fome ataca galinhas
guardadas ao poleiro
um ser humano com fome ataca
galinhas guardadas em qualquer lugar
um cassaco é um ser que carrega
os filhos no marsúpio dando-os de mamar –
sua única fome protegida
da mesma forma um ser humano
com fome enquanto criança
às ancas da mãe mama
como um ser humano
um cassaco é um mamífero
que ainda habita os sertões do brasil
ainda é um ser que fede
e que durante o dia não vive
e se –
morre
é morto.
sobre os cassacos pralém da américa
há semelhantes noutros continentes
sobreviventes segundo à lei natural
afinal um cassaco antes de tudo é um forte
mesmo a faltar-lhe a plástica impecável
é um homem permanentemente fatigado
é o que se sabe
e lá vivem também distantes
pois um cassaco antes de tudo fede
um cassaco
antes de tudo
não vive durante o dia
não o deixam
_
de cassaco chamou-se em apelido
aquele que fedia
de cassaco chamou-se aquele
que era preciso se estar longe
de cassaco chamou-se aquele
maltrapilho sem roupas
às mesmas roupas
de cassaco chamou-se
aquele da moagem da cana
sem direito à garapa
de cassaco chamou-se
aquele inquilino das ordens
a firmar os dormentes da linha de ferro
de cassaco chamou-se
aquele de picarete à mão
a coser estradas
um homem sem terra
e com toda terra a cravar sua tez
com filhos e não só um
no quase marsúpio
da mãe
de cassaco chamou-se
os quebradores de pedra
às barragens
de cassaco chamou-se
aqueles que não tinham o dia
de cassaco chamou-se
aqueles que não tinham
nem mesmo a mesma toca
para escabrunhar a noite
de cassaco chamou-se
aqueles de apenas um plano
sem planos
de cassaco chamou-se aqueles
que doutra coisa não se chama
de cassaco chamou-se aqueles que
não tinham o dia
que não tinham
um nome
por talvez motivo
ainda hoje não o chamam
como um ser humano
um cassaco é um mamífero
que ainda habita os sertões do brasil
ainda é um ser que fede e que durante o dia não vive
Mailson Furtado Viana é escritor, artista de teatro e produtor cultural cearense. Autor, dentre outras obras, de à cidade [vencedora do Prêmio Jabuti 2018 – categorias Poesia e livro do Ano]. Em Varjota|CE, cidade onde sempre viveu, fundou o Grupo CriAr de Teatro, em 2006, onde realiza atividades de ator, diretor e dramaturgo, e é produtor cultural da Casa de Arte CriAr. É colunista do jornal O POVO e possui obras publicadas em jornais, revistas e antologias no Brasil, França e Portugal e mais de 10 textos encenados no teatro. É provocador em cursos, oficinas e palestras sobre arte, cultura, literatura, teatro e mercado editorial.
