Lucio Carvalho
Bagé – RS
Agora não se vê tanto disso, mas, no auge da pandemia de 21, muitas vezes topei nas ruas com livros abandonados. Livros, discos de vinil, fitas cassete, VHSs, coleções inteiras de revistas e até mesmo antigas listas telefônicas e revistas em quadrinhos. Acho que o tempo passado forçosamente em casa fez muita gente inventariar o que vinha guardando, o que estava ocupando espaço demais e o que parecia que lhes estorvava o ambiente.
Ao lado dos containers, muitas vezes os pequenos monturos acolhiam esses desfeitos misturando-se a lixo ordinário, indiscriminadamente orgânico e inorgânico. No entanto algumas pessoas, mesmo na iminência do gesto extremo, cuidavam de fazer pilhas organizadas, modo de, talvez, facilitar a vida de quem se interessasse por qualquer coisa do espólio de desfazimentos.
Porque eu gostava de perambular naqueles dias livre de máscaras e maiores cuidados, vi isso muitas e muitas vezes, mas apenas diante de um deles eu parei e tomei de uma brochura para mim.
Sem capa nem sumário, o volume costurado de cadernos despencados começava diretamente na página 27. Era um objeto disforme. Não havia orelhas nem recomendações de quarta capa. Não havia vestígio do título ou de sua autoria.
Quem o teria escrito? Não me perguntei… Havia algo nele mais interessante que nos outros que o ladeavam, recriações de obras clássicas e itens de coleção com suas capas uniformes e supostamente avalizadas pelo tempo, este que dizem ser o mais severo dos críticos. Porém aqueles não me interessavam, como se, ao dar com o que via na capa, já soubesse o que me esperava. Mas, com “aquele”, isso não aconteceu. E especialmente por isso, por não ter uma ideia certa a seu respeito.
Acontece que ao dar com os olhos no que dele restou, o que li me pareceu incomum e familiar ao mesmo tempo. Sem dúvida eu já havia lido algo como aquilo e me passava estranha a vontade de querer me adiantar na leitura sabendo que o seu desfecho havia sido decepado também. Mas isso já não importava, precisava saber até onde seria levado por aquelas páginas desidentificadas mesmo que elas me jogassem a um precipício. Então, como se estivesse cometendo um crime, afastei-me do monturo e quase deixei-o ali entre os demais, mas minhas mãos não me obedeceram e fizeram-me enfiá-lo dentro do casaco. Furto de livro jogado ao lixo era o nome do meu crime, caso alguém queira tipificá-lo.
Antes de chegar em casa, aproveitando o facho de luz que acertava um dos bancos de concreto no hall do meu condomínio, sentei um instante e fiquei olhando aquelas páginas que violentamente soltavam-se das linhas da costura, como trapezistas tresloucados. Mas não me decidia a ler com atenção o que podia haver naquele pedaço de narrativa.
Quando a curiosidade me venceu, digitei no telefone um trecho aleatório e ele, que tudo sabe, não me trouxe nem uma resposta. Não me entristeci por isso, porque observá-lo como a um ícone me bastava. Era um semi-objeto, algo que já havia existido, mas que já não existia mais. Assim como quem toma de dois ponteiros não pode dizer que tem em mãos um relógio. Talvez fosse o livro que eu achava que precisava ter lido na minha adolescência e nunca tive a oportunidade porque onde vivia não havia livrarias. Poderia ser uma obra-prima que me revelaria algo genial que desconhecia. Uma obra rara que o antigo dono resolveu inutilizar para que ninguém mais a aproveitasse, logo, imperdível.
Sim, porque havia algo de perverso nesse livro maior do que a perversão de atorá-lo em seu princípio e final: a perversão de não permitir ao leitor que o encontrasse jamais compreendê-lo perfeitamente. Algo semelhante deve sentir, por exemplo, quem topa nas ruas com os braços da Vênus de Milo. Como se tivesse sido decisão do próprio objeto tornar-se inacessível como um labirinto danificado pelo tempo e tudo. E porque ele de imediato comunicava a impossibilidade da leitura e da interpretação, eu evitava desdobrar os sentidos das palavras impressas. Elas já não importavam. As palavras sem as frases, as frases sem os parágrafos e os parágrafos sem início e fim deixam de ser elementos textuais, passam a ter tanto sentido quanto um delírio dadaísta ou um lance de dados.
Como alguém poderia ter jogado fora uma coisa assim? Uma brutalidade, sem dúvida, mas o mundo está cheio de brutos. Sempre esteve e sempre estará. Pois eu o levaria comigo, decidi. Seria ao menos o item mais precioso dos muitos que guardo sem mais explicações, mas que gosto de sabê-los ali porque às vezes posso desaparecer no interior da sua existência frágil e confusa. Entre revoltado e amargurado, subi de volta ao apartamento. Não chorava, mas tinha os olhos úmidos da revolta e encontrei a casa exatamente como a deixara. As pilhas de livros prontas para o descarte lotavam o corredor estreito, minuciosamente encaixotadas. Com a porta ainda aberta, nem cheguei a sentar e devolvi meu livro ao topo da próxima pilha, tomando da caixa para colocá-la junto ao container, pois o caminhão de recolhimento já havia passado e engolido, com os critérios da sua bocarra de lata, a tudo que encontrava em seu caminho.
Lucio Carvalho nasceu em Bagé (RS) e mora em Porto Alegre (RS). Autor de “La Minuana” (2023, TAN), “Down House, 1858: o memorial de Charles Waring Darwin” (Dialogar/2024) e outros.
