POESIA

Em memória de Emmanuel Santiago

Imagem: Acervo pessoal.

José Francisco Hillal Botelho
Bagé – RS

Emmanuel Santiago (1984-2026) não gostava de declamar poemas. Gostava de lê-los, sim; mas sem impostar a voz, sem grandes gestos, sem maneirismos de oratória. Foi assim que o conheci, aliás: ele estava lendo um poema seu, em voz alta, muito sereno e escorreito, às vezes erguendo da página seus olhos de pássaro sapiencial, para em seguida deixá-los deslizar novamente pelas linhas. Depois foi minha vez de ler. Tentei imitar o Manu em seu aplomb, mas não consegui. Gesticulei demais.

Sua maneira de recitar era também sua maneira de escrever. O domínio absoluto da métrica lhe permitia deslizar pelas páginas sem esforço aparente, como se as palavras escrevessem a si mesmas. Era tal sua noção de ritmo que mesmo entre seus versos livres jamais existiu um pé quebrado (paradoxo que deixo à decifração de quem lê). E eis que, no embalo de sua cadência encantatória, acerta-nos o verso de misericórdia, o golpe fatal que nos tira do mundo e nos deixa apenas com a página e sua verdade: Paixão é pássaro truculento. / A crueldade, não./ Crueldade requer delicadeza.

Verdade: eis a palavra que nos interessa agora. Relendo a poesia de Manu, percebi que sua verve desprovida de cacoetes transmite uma impressão de verdade imediata, quase epidérmica: aquilo que lemos em suas páginas são sensações e coisas reais, reencontradas e desbastadas na pedra das Ideias por sua mão sábia e conhecedora. Por isso, é-me duplamente doloroso relê-lo hoje: porque Manu não está mais aqui; porém Manu está, sim, ali.

Emmanuel Santiago nos deixou em 23 de abril de 2026 – aniversário da morte de seu amado Shakespeare, cujos sonetos ele estava traduzindo, em dodecassílabos de quatro batidas. Li muitas dessas traduções, pois conversávamos quase todos os dias, quando ele estava bem. Manu muitas vezes corrigia minha métrica, ou me ajudava a escolher a melhor opção entre versos possíveis. Também falávamos sobre parnasianismo, Machado de Assis, Guimarães Rosa, o mundo, os seres, as estranhezas e os tesouros da vida. Desde março, quando foi internado, ele não pôde mais responder; e o resto foi silêncio.

O silêncio de Manu, inicialmente, pareceu ter aberto um abismo no mundo. Porém percebo agora que ele não deixou um vazio, mas uma plenitude. A lembrança de sua bravura nos tempos derradeiros será como a verdade de seus versos: um ato perpétuo do mundo e uma viagem contínua pelos lugares mais profundos da mente, com sua beleza, seu espanto, sua bizarria. Nossa conversa, meu amigo, continua.

Lição de ornitologia

A paixão entrou pela janela
Escancarando gavetas,
Rasgando livros,
Quebrando taças de cristal,
Pisoteando intimidades encaixotadas sob a cama,
Tombando paredes.

Paixão é pássaro truculento.

A crueldade, não.
Crueldade requer delicadeza.

§

Fragmento de um poema incinerado

… e que o amor
fosse como o Bolero de Ravel
cada vez maior
cada vez maior
cada vez maior
e silêncio…

§

Mais um soneto…

Quis escrever um último soneto
E deixar para trás as esperanças
Daquilo que se quer, mas não se alcança;
Daquilo que se diz, mas é secreto.

Suturei as palavras no meu peito,
Mas fui traído pelas circunstâncias:
Se falo, não inspiro confiança;
Se calo, mesmo assim me comprometo.

Então mais um soneto vem-me à pena
No susto de um desejo repentino;
Outros virão, às dúzias de centenas.

Engenho ardente, ainda que mofino!
Outro soneto, a mesma cantilena…
É o coração seguindo seu destino.

§

(de)Primaveril

Quanto mais o tempo passa,
menos a rememorar:

a brasa daquele desejo
derreteu ao relento
nem sequer virou cinza

(chovia uma chuva fina
de límpidas fagulhas).

Quando o sol resolveu brilhar,
era noite outra vez
e pássaros lobotomizados
esqueceram a canção.

Perderam-se os nomes das flores
e, indigente,
a Primavera
vende enfeites de papel crepom.

§

Canção do desamor

Meu amor, não te quero bem.

Não quero teu sorriso desfraldado feito
o Cruzeiro do Sul sobre a Baía
da Guanabara; quero vê-lo
arrastado pelas sarjetas, borrado de cinzas.

Teu olhar, quero-o todo
coagulado de lágrimas,
grossas como cacos de vidro;

e teus cabelos, impregnados de fuligem e orvalho,
feito a coberta dos mendigos
na Praça Princesa Isabel.

Então recolher teu corpo do meio-fio
e cobri-lo de beijos
como se de varíola, e feri-lo
de carícias, e torturá-lo de ternura.

Depois, dissecar teu sexo com a boca seca.

Mas, amor, não te quero bem.

§

Penélope

Da janela deste quarto, o Rio
de Janeiro parece mais sombrio
sob o brilho empalidecido da garoa.

Daqui vejo o mar — mancha que se alastra
devagar, com sua fluorescência
de medusas venenosas e anêmicas anêmonas.

Até mesmo o sol vaga sonâmbulo
pelos céus, à deriva e opaco
feito a íris de um gato morto,
contraindo-se atrás de toneladas de nuvens.

Quem me dera irrompesse agora
uma tempestade, abrupta
e brutal, convulsionando as ondas
num ataque epilético, mas a tarde
mantém-se inerte, anestesiada pela chuva fina.

Não há pessoas na praia.

O hotel está deserto.

Aviões derretem no Santos Dumont.

Checo o celular pela última vez.

A chuva simplesmente se cansou de molhar
e as nuvens vão se diluindo numa luz
âmbar, formando um céu cor de bronze
a pairar muito próximo de nossas cabeças.

O sol ensaia um brilho desesperado,
já corroído pela ferrugem e abafado
pela luz disciplinar dos postes elétricos,
dispostos em fileiras, como soldados.

Enquanto o crepúsculo se desfaz na púrpura
espuma de mares noturnos, choro
feito Penélope à espera do marido,
ouvindo o áspero ruído de ondas desmoronando.

Emmanuel Santiago (1984-2026), nasceu em São Lourenço/MG. Foi poeta, crítico literário, tradutor e professor de Literatura. Doutor em Literatura Brasileira pela USP, sua obra incluiu títulos como Pavão bizarro (2014), A ave Lúcifer (2020), A renga do corvo (2023) e O livro dos colibris (2025). Dedicava-se também à crítica literária e à tradução de poetas como William Shakespeare, entre outros.

2 comentários sobre “Em memória de Emmanuel Santiago”

  1. Tânia Santos disse:

    Pessoas raras estão cada vez mais caras, ou talvez seja eu que estou cada vez mais rala com a proximidade dos meus 60 anos.
    Meus sentimentos

  2. AUREA GARIBALDI disse:

    Que alegria e dor ao mesmo tempo! Descobrir a poesia de Emmanuel Santiago e sabê-lo já não mais entre nós. E em que dia ele retornou para “the undiscover’d country, from whose bourn no traveller returns”.

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