Da admiração – 1
Pensava com Nação Zumbi
na ferida circulante
o estranho familiar do amor clariceano
o bichinho que faz tudo pular na
casa sonolenta da infância
pela leitura de imagens
sempre a atravessar
o plexo solar
Da admiração – 9
O sangue em todo o nosso sonho
o som em todo o sentido: universo
Virá da música, o verso em ondas
que nos tangem
Tocante desejo
Se a verbalização nos faz
presentes em sua morada de corpo
de palavra-mundo, de fúria
da vida avançando numa
janela límbica
Verbo do tempo
sem
fim
Da admiração – 10
A flor no deserto
na queimada
também é uma mulher
Acostuma
com o olhar
ninguém é cego, dizem
No deserto, a flor é a que tem mais fome
(a flor do desejo)
mas a água não vem dos olhos
cegos e nem dos que veem
porque a flor nem sempre é visível
Janela
Oscilações mudas e desenredos sonoros
Atrás do concreto
na borda
dispersamente
tantos de nós
náufragos vítreos
à deriva
nas paisagens e objetos
lá e cá.
Corpo
Não se renda aos infortúnios:
quando a maresia
atravessa teu Templo
de corpo viajor
suave
na bússola
da pele
Tua vida em todo
estado
de sonho-Nação
Luciana Moraes é poeta, graduada em letras pela Unirio, revisora e tradutora literária. Integra os coletivos Fazia Poesia e Escreviventes, pesquisando o hibridismo nas artes extemporâneas. Há publicações e traduções de sua autoria em revistas e jornais. Seus livros anteriores são Tentei chegar aqui com estas mãos (2022) e Flor de sangue (2024).
