POESIA

De “Desvelos (s)”, de Luciana Moraes

Imagem: Troy, 1920s.

Da admiração – 1

Pensava com Nação Zumbi
na ferida circulante
o estranho familiar do amor clariceano
o bichinho que faz tudo pular na
casa sonolenta da infância
pela leitura de imagens
sempre a atravessar
o plexo solar

Da admiração – 9

O sangue em todo o nosso sonho
o som em todo o sentido: universo
Virá da música, o verso em ondas
que nos tangem

Tocante desejo

Se a verbalização nos faz
presentes em sua morada de corpo
de palavra-mundo, de fúria
da vida avançando numa
janela límbica

Verbo do tempo
sem
fim

Da admiração – 10

A flor no deserto
na queimada
também é uma mulher

Acostuma
com o olhar
ninguém é cego, dizem

No deserto, a flor é a que tem mais fome
(a flor do desejo)
mas a água não vem dos olhos
cegos e nem dos que veem
porque a flor nem sempre é visível

Janela

Oscilações mudas e desenredos sonoros
Atrás do concreto
na borda
dispersamente
tantos de nós
náufragos vítreos
à deriva
nas paisagens e objetos
lá e cá.

Corpo

Não se renda aos infortúnios:

quando a maresia
atravessa teu Templo

de corpo viajor
suave
na bússola
da pele

Tua vida em todo
estado
de sonho-Nação

Luciana Moraes é poeta, graduada em letras pela Unirio, revisora e tradutora literária. Integra os coletivos Fazia Poesia e Escreviventes, pesquisando o hibridismo nas artes extemporâneas. Há publicações e traduções de sua autoria em revistas e jornais. Seus livros anteriores são Tentei chegar aqui com estas mãos (2022) e Flor de sangue (2024).

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